Vingança, Trapaça, Luvas, Concorrentes, Marketing, Ética e uma história ordinária

Por Jonatas Abbott, para Coletiva.net

Restaurante caro. Diretorzão do concorrente. Concorrente gigante, multinacional e líder. Vínhamos duelando no incipiente mercado de internet gaúcho da segunda metade da década de 1990. O provedor em que eu trabalhava, pequeno e independente, dominava 100% o mercado de canais e revendedores locais com marcas de peso com nossa embalagem na vitrine como Colombo, Ponto Frio, Compujob, Unidata e etc.

O convite para o almoço me colocou os sentidos em alerta. Fato. Queriam "me roubar" para "o outro lado". Fui rápido. "Até topo, mas com luvas bem obscenas de transferência, que justifiquem eu abrir mão de um baita desafio ao lado de um grande amigo", disse eu, na época. Como previa, sumiram. O diretor em questão era aquele tipo comum hoje dia no mercado digital. Almofadinha, falso humilde, com bom papo, mas daquele tipo "vaporware", sabe? Muita fumaça e pouca água. Sujeitinho com quem não gostaria de dividir uma sala, muito menos uma grande aventura no mercado.

Nossa embalagem para canais foi revolucionária. O concorrente em questão, um dos maiores do Brasil na época, fazia fila em seu estande nas feiras de informática para o cliente dos estandes de venda de computadores saírem conectados numa internet discada na época. Lindo, mas muito pouco eficaz. Eu criei uma embalagem, junto com a Mais Comunicação, que continha, além de disquetes com o Internet Explorer, uma senha e nome de usuário pré-cadastrado nos nossos servidores. E colocamos um time de 26 meninas de jeans e camiseta (sem nenhum apelo físico) espalhadas pelos estandes e de posse de contratos padrão. O cliente assinava, saía com a embalagem, conectado e com manual de uso, e depois personalizava online seu user e senha.

Entramos na primeira feira com 700 clientes e, nela, apenas conquistamos 1.005 novos. Explodimos e dominamos o mercado, e nenhum provedor grande tirava uma loja da gente.

Infelizmente, um ano depois dessa reunião o provedor foi vendido. Para quem? Para esse que tentou me roubar. Na primeira visita daquele diretor na nossa sede, ele parou na frente da minha equipe e largou: "E as tuas luvas agora, Jonatas, como ficam ?".

Fiquei apenas quatro meses na mesma sala que ele. Quatro meses longos e odiosos. Para meu desespero como profissional de Marketing, o provedor manteve suas filas e não adotou a embalagem. Eu não tinha eco nas minhas ideias, entre outros obstáculos típicos de uma grande empresa com um chefe muito, muito fraco. Tive vários constrangimentos com ele, falta de respeito mesmo.

Fui convidado para assumir, então, a gerência geral da filial de um grande provedor brasileiro, também uma multinacional. Minhas ideias foram ouvidas e fui promovido a diretor comercial nacional, me mudando, na época, para Floripa e São Paulo.

No meu último dia com "aquele" chefe e, bem longe do meu estilo (mentirinha), não resisti. Mandei uma carta de demissão bem completa para a diretoria. Em seguida, levantei-me e fui à mesa do "líder". Expliquei e desenhei detalhes da demissão, em voz bem alta e firme. Dedo em riste, despedi-me. Não sem antes, com canto de olho, ver o brilho nos olhos e o sorriso no canto da boca de meus colegas de infortúnio. Sim, jamais façam isso em casa, ou melhor, nas suas carreiras. Sim, foi um erro. Emocional. Improdutivo. Mas não só foi gostoso e humano, como ali, naquela sala e naquele dia, de dedo em riste, eu me tornei um líder, um executivo sênior e um homem.

Doia anos depois, meu provedor atendia, curiosamente, a uma das maiores casas de prostituição de Porto Alegre, que exigiu minha presença numa reunião à tarde. Cena de filme, passamos por dançarinas seminuas para chegar aos fundos, numa sala de gerência. Lá, me foi oferecido um CD com trocas de emails da diretoria daquele provedor do chefe das luvas... Não só recusei, como alertei imediatamente que aquilo era crime. O gerente me respondeu: eu sabia que tua reação seria essa. Por isso, imprimi apenas um, que cita teu nome. O li, obviamente. Era o tal diretor propondo uma ação jurídica contra minha ida para o concorrente de Florianópolis. O tempo mostrou duas coisas: seus colegas não compraram a ideia; e ele não aprendera a lição.

Hoje, sentado aqui, no melhor emprego do mundo, na melhor empresa do mundo, lembro de uma frase do Talmud: "Live well, it's the great revenge". Por que em inglês ? Sei lá, dá mais impacto... Humano e improdutivo, eu sei.

Jonatas Abbott é sócio-diretor da Dinamize.

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