Por Rafael Bordin Schuch
A Grécia, particularmente a cidade de Atenas, sempre foi reconhecida como berço do pensamento e da filosofia ocidental. Desde Sócrates, seu discípulo Platão, e o discípulo, deste Aristóteles, foi o centro do maior movimento intelectual humano que formou a sociedade ocidental. Após a ocorrência de vários períodos históricos, guerras e revoluções, o país onde se criaram a democracia, os jogos olímpicos, a ciência política, a matemática e o teatro ocidental, foi perdendo importância para outras nações. Entretanto, hoje, quem seria o maior e mais importante pensador grego contemporâneo à altura dos antigos pensadores?
O escritor e filósofo cretense Nikos Kazantzakis desde cedo testemunhou muitos dos fatores que marcariam a sua obra e que expressam a violência, o amor, o pecado, a solidão, o horror, a liberdade e a hipocrisia humana, povoando assim seus livros com preocupações metafísicas e existenciais ao estilo dos primeiros filósofos gregos. A ilha de Creta só tornou-se independente da Turquia em 1897, e durante esta época o povo sofreu na pele os efeitos da miséria e da luta pela libertação da dominação turca, traços muito bem testemunhados por ele. Além disso, o também poeta envolveu-se diretamente com a primeira guerra balcânica de 1912, tanto a primeira quanto a segunda guerra mundial e a Guerra Civil Espanhola, que demonstraram ao autor o nível de inquietação e angústia em que estavam tomados os seres humanos.
Autor de romances imortais que tratam de temas universais, Kazantzakis tomou o cuidado de focar sua obra na sólida expressão dos mais contraditórios e ativos sentimentos humanos de seus personagens que assolam a humanidade. Profundamente influenciado por Nietzsche, até 1936 foi um peregrino que, além de ter testemunhado várias guerras do século 20, viajou pela Rússia, Europa, Oriente Médio e Extremo Oriente em busca de novos lugares, novas expressões, novas situações, novas idéias de mundo e de vida que respondessem as suas perguntas. Além disso, em 1923, realizou uma peregrinação pelos locais que o filósofo alemão visitou e a sua convivência com intelectuais alemães marxistas em Berlim fez com que apoiasse o socialismo.
Escreveu, entre outros livros, “O Cristo Recrucificado” e “A Última Tentação”, que tratam de Jesus Cristo, figura sempre presente em sua vida. O segundo livro foi adaptado para o cinema, dirigido por Martin Scorsese, que acrescentou a palavra “Cristo” ao título do filme. Nele, o ator Willem Dafoe interpreta Jesus e Harvey Keitel é Judas, o melhor discípulo de Jesus e paradoxalmente o traidor, por 30 moedas de prata. O livro, condenado pelos religiosos conservadores gregos, foi incluído pela Igreja Católica no Index Librorum Prohibitorum, e pela obra Kazantzakis foi excomungado da Igreja Ortodoxa Grega em 1955.
É preciso conhecer o filme Zorba, o grego. A obra mais conhecida de Kazantzakis foi adaptada para o cinema pelo diretor, também grego, Michael Cacoyannis, tornando o autor mundialmente conhecido. O protagonista e personagem-título Zorba, interpretado por Anthony Quinn, na melhor interpretação de sua carreira, representa o clássico homem apaixonado pela vida livre e intensa, extremamente bem humorado, encarnando um espírito sem preconceitos e amante de aventuras. Integram também o filme Alan Bates (Basil), Irene Pappás (a viúva) e Lila Kedrova (Madame Hortense), que recebeu por sua interpretação o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Além disso, o filme foi indicado nas categorias de melhor filme, diretor, ator (Anthony Quinn) e de melhor roteiro adaptado. Uma das cenas clássicas do cinema é mostrada ao final do filme quando Zorba dança juntamente com Basil, após o desastre que leva à falência este seu patrão, uma música típica grega, o Sirtaki, que mistura ritmos lentos e rápidos.
Ler e estudar as obras de Nikos Kazantzakis, ouso dizer, é o mesmo que aprender com os pensadores da antiguidade. Apoiando-se nos ombros de gigantes (como disse Newton), Kazantzakis desenvolveu uma obra com características que a tornam distintas e com peculiaridades identificáveis pelo leitor que o reconhece pelos seus livros não pelo seu nome. Dessa forma, este imortal da literatura universal criou um novo padrão ao abordar temas universais.

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