‘Menos prompt, mais thinking’: André Foresti alerta para crise cognitiva na era da IA

Especialista defendeu, no Summit Empreender 40+, que pensamento crítico é o novo ouro, e que a inteligência artificial escancarará as diferenças entre as pessoas

Pela segunda vez, André Foresti palestra no Summit Empreender 40+ - Crédito: Coletiva.net

Em um mundo onde a média de foco em uma tarefa caiu para menos de 2,5 minutos e o consumo excessivo de telas já tem nome, brain rot. O especialista André Foresti subiu ao palco do Summit Empreender 40+, nesta quarta-feira, 13, no Teatro Bourbon Country, em Porto Alegre, para fazer um diagnóstico provocador: estamos vivendo a maior crise cognitiva da história, e a inteligência artificial está chegando para escancarar isso.

Foresti começou pela fotografia do presente. O ‘modo zumbi’, pessoas que olham para o celular durante reuniões, que pausam filmes porque perderam o fio da meada, que têm opinião sobre tudo e pensamento sobre quase nada, é, para ele, um sintoma real e grave. “Não fazer nada está associado a uma falha”, disse, citando o livro ‘Vida Contemplativa’. O resultado é uma geração hiperconectada e com pouco espaço para reflexão.

Sobre a IA, o tom não foi de apocalipse, mas de urgência. “O GPT fez em três anos o que a internet levou 13 para fazer”, contextualizou. Já estamos na era em que agentes autônomos operam com poder crescente – e, a partir de 2026, segundo ele, mal saberemos distinguir o que é produzido por humanos do que é gerado por máquinas. A primeira onda, de “apertadores de botão” animados com a novidade, já passou. “Fiz uma apresentação em cinco minutos. Mas se a empresa não precisou de você para chegar no produto final, ela vai perceber que não precisa de você.”

Era humana da IA

Daí o convite central da palestra: entrar na chamada Era Humana da IA, não contra a tecnologia, mas para reorganizar o papel humano dentro dela. Para isso, Foresti elencou cinco pontos.

O primeiro foi o pensamento crítico, que definiu como “o sistema operacional do novo mundo”. Nascemos com a capacidade de perguntar “por quê?”, mas estamos deixando essa habilidade atrofiar. 

O tribunal dos três segundos, o julgamento rápido das redes sociais, nos acostumou a um mundo de certezas demais e reflexão de menos. “Estamos precisando ser capazes de opinar de verdade”, disse, lembrando o meme da Glória Pires comentando sobre o Oscar, em 2016, como símbolo da humildade intelectual que faz falta.

Para colocar em prática

Os pontos seguintes da palestra giraram em torno de atitudes práticas. Foresti alertou para o risco da validação automática de entregas feitas com IA, o que chamou de “workshop do claro, excelente ideia”, citando pesquisa do Stanford Social Media Lab. Ela que aponta que 40% dos profissionais já receberam trabalho malfeito gerado por inteligência artificial. 

Também defendeu o investimento no repertório humano, questionando por que, se não temos tempo, todo mundo sabe do “morango do amor” ou do namoro do Vini Jr. Sua receita foi simples: teatro, livros, conversar com estranhos, seguir perfis com quem se discorda. “Quem está ocupado com tudo não tem tempo de fazer o que vai diferenciar.”

Ele também diagnosticou uma crise de imaginação: o sistema límbico aprendeu a performar dentro da lógica digital e parou de flutuar. Criticou a “performance burra”, reuniões sobre performance que ocupam mais espaço do que o ato de pensar, e sentenciou: “Vilanizamos o pensar como perda de tempo”. 

Por fim, recusou a tese de que a IA emburrece as pessoas. “Isso está acontecendo bem antes das inteligências artificiais.” Para ele, curiosidade, empatia, pensamento crítico e aprendizado contínuo são treináveis. “O cérebro é um músculo.” Foresti encerrou com a pergunta “A IA está mega pronta para pensar. E vocês?”


A equipe do Coletiva.net está presente na segunda edição do Summit Empreender 40+. A cobertura conta com as jornalistas Márcia Christofoli, Patrícia Lapuente, Márcia Dihl e Sarah Acosta, e a social media Anie Cristine Gabriel. Acompanhe em tempo real pelo portal Coletiva.net, Facebook, Threads, Instagram e Coletiva.rádio.

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