A festa da firma e uma pesquisa de enrubescer

Por Flávio Dutra

Fim de ano é um período infernal para frequentar restaurantes. Nos almoços, nos jantares ou num simples happy é inevitável enfrentar nas mesas ao lado alguma confraternização de fim de ano da firma ou a própria festa da firma.  Observador atento que sou, sei distinguir logo a confraternização, um ritual mais ligeiro do que seria a festa da firma, que exige uma produção mais requintada. Tanto assim, que na festa as moças se apresentam invariavelmente em seus pretinhos básicos ou nas modernosas roupinhas com estampas da moda.  Todas de banho tomado, maquiagem e cabelos caprichados, olhar do tipo "é hoje!" e sobraçando o embrulho com o presente do amigo secreto. Sim, porque confraternização ou festa de firma que se preze tem que ter amigo secreto, com cerimônias de entrega plenas de algazarras - um mico para os mais austeros, entre os quais me incluo.

E segue a fuzarca, em alguns casos interrompida pelo discurso do "Homem", o chefão que banca a festa e vai agradecer aos "nossos colaboradores pela dedicação e a superação dos desafios". A frase é tão previsível quanto o sujeito inconveniente de fim de festa, que tomou umas a mais, acha que é o gostosão do pedaço e passa a tirotear em todas as colegas. Como sou rodado, já vi de tudo nessas ocasiões.

A propósito de rodado, no último episódio do qual fui testemunha da série "festa da firma" o tema recorrente entre as moçoilas, predominantes no caso, era o resgate de um texto publicado tempos atrás na Folha de São Paulo com o sugestivo título "Você é uma mulher rodada?". Confesso que fiquei enrubescido com o pouco que pude ouvir das quase senhoras, que eu arriscaria dizer, de conduta ilibada.

Pelo que entendi, tratava-se de um questionário, resposta irônica e bem humorada ao machismo, com indagações do tipo "Já fez sexo no primeiro encontro?", "Já fez sexo no primeiro encontro mais de uma vez?", "Não sabe quantos parceiros teve na vida?", "Na verdade, nunca contou?". Essas, eu diria, eram as questões mais civilizadas. Não resisti, agucei o ouvido e me arrependi, porque as moças, quase senhoras, começaram a pegar pesado nos questionamentos que caracterizam a mulher rodada. Coisas do tipo: "Transou com estrangeiros na Copa?", "Transou com colegas de trabalho na festa da firma?" "Já fez canguru perneta?", além de uma que me deixou chocado - "Transou com anão?" - e outra muito intrigadíssimo - "Já teve (ou tem) um PA e recomenda?".

PA? O que indicaria a sigla? Quase abandonei minha posição de ouvidor passivo e fui perguntar às ocupantes da mesa ao lado, mas recuei, eis que sou um tanto desprovido no quesito altura e minha presença poderia ser interpretada como o tal anão da transa, um anão oferecido que, se utilizado, resultaria em pontos extras rumo à mulher rodada.

Ao deixar o restaurante e a algaravia das moças, saí angustiado com o desconhecimento que persiste quanto ao significado de PA.  Não me arrisquei a dar qualquer outro significado a não ser o verdadeiro, e talvez seja condenado a ficar eternamente com essa dúvida, castigo para deixar de ser abelhudo. E aí, veio a surpresa final, quando uma das moças, quase senhora, disparou em alto e bom som:

- Tirando transar com anão, me enquadro em todas as outras questões!

Apressei o passo para me afastar logo do local. Vamos que a moça estivesse interessada em completar a série, convocando um anão...

Autor
Flávio Dutra, porto-alegrense desde 1950, é formado em Comunicação Social pela Ufrgs, com especialização em Jornalismo Empresarial e em Comunicação Digital. Em mais de 40 anos de carreira, atuou nos principais jornais e veículos eletrônicos do Rio Grande do Sul e em campanhas politicas. Coordenou coberturas jornalísticas nacionais e internacionais, especialmente na área esportiva, da qual participou por mais de 25 anos. Presidiu a Fundação Cultural Piratini (TVE e FM Cultura), foi secretário de Comunicação do Governo do Estado, da Prefeitura de Porto Alegre, superintendente de Comunicação e Cultura da Assembleia Legislativa do RS e assessor no Senado. Autor dos livros 'Crônicas da Mesa ao Lado' e 'A Maldição de Eros e outras histórias', integrou a coletânea 'DezMiolados' e foi coautor com Indaiá Dillenburg de 'Dueto a dois é sempre melhor'.

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