Detetive de almas

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Estou dentro de um homem ou

dentro de um assassino?"

G.K. Chesterton

O primeiro conto policial de Gilbert Keith Chesterton com seu mítico personagem, o Padre Brown foi publicado em Londres em finais de 1917 - ou seja, exatamente há 100 anos. Até hoje, estudiosos da obra chesterniana debatem e pesquisam a raiz do enigmático personagem, que segundo o autor, sabia mais de crime do que os próprios criminosos.

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O mais intrigante da construção do Padre Brown como detetive é o fato de ter acontecido bem antes da conversão de Chesterton ao catolicismo. E o momento também não era muito propício, pois a concorrência era grande. Já estavam nas livrarias dos dois lados do Atlântico, estórias fascinantes de Sherlock Holmes e Arséne Lupin, que breve seriam acompanhados pelo belga Hercule Poirot e pela britaníssima Miss Maple, criados pelo gênio de Agatha Christie. Os biógrafos de GKC creditam à sua proverbial irreverência ter escolhido como herói um sacerdote católico, quando o catolicismo romano era encarado com extrema desconfiança no mundo anglo-saxônico, ainda vivendo forte herança anglicana dos tempos de Henrique VIII.

Alguns anos mais tarde, Chesterton contaria a seus leitores como nasceu o mítico personagem. Disse ter acontecido em um encontro casual com uma figura real, o padre irlandês John O' Connor. G.K. Chesterton se encontrava em férias no condado de Yorkshire, quando se perdeu em caminhada pelos campos e charnecas de um lugar chamado West Riding.

O padre O'Connor o encontra sem rumo e o conduz à Keighley, onde era pároco. Na caminhada de volta, os dois discutem teologia, quando o escritor se impressiona pela sabedoria com que o pároco se refere aos pecados e grandezas da condição humana. Mais tarde, em O Segredo do Padre Brown, de 1927, ele faria esta dedicatória:

"Ao Padre John O"Connor, cuja verdade é mais

estranha do que a ficção, com uma gratidão

maior do que o mundo que vemos."

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Os títulos das coletâneas de contos que se seguiram devem ser lidos como pistas de novela policial, que podem levar o leitor a entender a personalidade do padre-detetive - A Inocência do Padre Brown, A Sabedoria, A Incredulidade, O Segredo, e O Escândalo do Padre Brown. Em um destes contos, encontramos um simples, mas significativo episódio, exemplar dos talentos de GCK - a inserção no cotidiano de simbolismos e paradoxos. Ele lembra quando dois estudantes de Cambridge, ao vê-lo conversando com o padre O'Connor, comentam divertidos:

"Sorte dos padres que vivem longe da realidade e

nada conhecem do mal que habita o mundo."

A réplica, irônica e mordaz não tarda:

"Os jovens sabem tanto do Mal como

crianças em um carrinho de bebê."

O episódio renderia uma reflexão que desenha o personagem que estava por nascer: o Padre Brown em sua aparente inocência e candura conhece mais do crime do que o próprio criminoso.

Eis um paradoxo chesterniano: a solução de um crime misterioso e a descoberta do criminoso não é um trabalho científico e policial, mas um exercício religioso. No horizonte do padre-detetive não existe apenas a entrega do bandido à justiça dos homens, mas o encontro com o pecador para lhe falar da Verdade e abrir caminho à conversão.

A trajetória do Padre Brown nas descobertas e investigações assumirá, ao longo das estórias, um estilo que se afasta da narrativa detetivesca, assumindo feições de ortodoxia canônica.

Em O Escândalo do Padre Brown, publicado em 1935, o padre-detetive assume dimensões quase espirituais. O ano coincide com a crise de fé que acomete G.K. Chesterton e este trecho da última novela ajuda a entender a mudança:

"O Padre Brown percorre o caminho traçado por aquele que não conheceu o pecado, quando levanta sua taça e as chamas da lareira fazem o vinho tinto se tornar transparente. (...).

A chama vermelha prende seu olhar, como se a taça contivesse o mar vermelho de culpas da humanidade. (...)

O que salva o confessor e o pecador é a caridade que os leva a viajar juntos ao centro de si mesmos, reconhecendo o horror da maldade e retomando o caminho da verdade, do remorso e da graça que é mediada pela compaixão."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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