Estamos no meio de uma revolução

Por Elis Radmann

Muitas vezes, quando se fala em revolução, pensa-se em uma ruptura, uma transformação radical em um curto espaço de tempo.

O mundo digital está entrando cada vez mais em nossas vidas sem nos darmos conta de que estamos passando por uma revolução digital. E esta revolução digital, que é eminentemente tecnológica, está afetando nosso cotidiano, nossos valores e transformando progressivamente a forma como vivemos e nos relacionamos.

Não se trata apenas de uma etapa do desenvolvimento tecnológico, é muito mais do que isso! Estamos vivenciando constantes quebras de paradigmas.

Estudos realizados pelo IPO - Instituto Pesquisas de Opinião indicam que mais de 85% dos gaúchos estão conectados nas redes sociais, sendo que, entre a população entre 16 e 45 anos, este índice passa de 90%. As redes sociais se tornaram um fenômeno de massa, penetrando em todas as classes.

Mais da metade dos gaúchos utiliza aplicativos para contatar diferentes serviços, como transporte, hospedagem, alimentação, entre outros.

Ainda no campo da transformação digital, nossos documentos (como carteira de motorista, título de eleitor, carteira de identidade, etc.) estão sendo convertidos para o meio digital.

Utilizando o celular, que está sempre em nossas mãos, temos condições de falar com qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, saber o que pessoas conhecidas estão fazendo, pesquisar os últimos acontecimentos de qualquer localidade, realizar compras, transferir dinheiro, etc.

O celular se torna o objeto mais importante na vida de qualquer pessoa. Está presente no deslocamento, no local de trabalho, na sala de aula, na mesa da refeição, nas reuniões de família e, em muitos casos, acompanha as pessoas no quarto e no banheiro. O celular diminui o tempo das pessoas, que, cada vez  mais, têm menos tempo para as outras pessoas.

O celular é utilizado todo o dia e o tempo médio de uso fica em três horas. É quando olha um Whats aqui e outro ali, entra no Face, dá uma olhadinha no Insta e como esta ação é feita muitas vezes durante o dia, nem nos damos conta do tempo que perdemos.

O grande dilema desta revolução digital diz respeito ao papel que estamos ocupando neste processo. Ou seja, estamos sendo objetos desta revolução e não sujeitos.

Este dilema se potencializa com o aprofundamento do individualismo que amplia a força das Fake News (notícias falsas). Neste contexto, passamos a conviver cada vez mais com indivíduos que acreditam em falsas verdades e apresentam uma baixa capacidade de diálogo.

Ser objeto de uma revolução digital significa que não estamos no comando, estamos sendo comandados. Na maioria dos casos, não temos a consciência do tempo que perdemos com o mundo digital e do que estamos deixando de usufruir no mundo real. Não temos claro as regras, os valores, o que é certo e o que é errado. Esta revolução digital fragiliza o princípio básico de que temos direitos e deveres e que o direito de um acaba onde começa o do outro e que este debate envolve bom senso, ética e valores morais.

O que precisamos é ter consciência desta transformação digital e nos posicionarmos como sujeitos deste processo. Saber o que queremos com a tecnologia, o papel que ela deve ocupar em nossas vidas, até que ponto ela interfere em nossas relações pessoais e quanto tempo vamos 'gastar' com ela.

A revolução digital é um fenômeno irreversível. O que precisamos definir é se seremos objetos ou sujeitos desta transformação.

Autor
Elis Radmann é cientista social e política. Fundou o IPO - Instituto Pesquisas de Opinião em 1996. Utilizando a ciência como vocação e formação, se tornou uma especialista em comportamento da sociedade. Socióloga (MTb 721), obteve o Bacharel em Ciências Sociais na UFPel e tem especialização em Ciência Política pela mesma universidade. Mestre em Ciência Política pela UFRGS e professora universitária, Elis é diretora e Conselheira da Associação Brasileira de Pesquisadores de Mercado, Opinião e Mídia (ASBPM) www.asbpm.org.br

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