Forever Young

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"Faça tudo o que tiver vontade de fazer.

Desde que seja inteligente."

(Paul Gauguin)

Os moradores da pequena cidade à beira-mar ainda se lembram de Helmut.   Ele era um velhinho enxuto, de passo ligeiro, quase acelerado e com um sorriso permanente no rosto. Já passara dos 80 anos, mas parecia ter uns 50 - e sempre de bom humor, saudando pessoas na praça e nas ruas. Depois que a mulher morreu, Helmut percebeu que os dias estavam mais difíceis e as horas, demoravam a passar. Mas se recusava a ficar em casa sem fazer nada.

"Máquina que não funciona, enferruja", dizia.

Adorava mexer no jardim, mas os filhos, para poupá-lo, contrataram um jardineiro para mexer na terra e cortar a grama. Ele não gostou de ver um estranho fazer o que ele gostava - um prazer a menos na vida...

Mas Helmut não reclamou e tocou em frente. Então, resolveu sair à procura  dos colegas do antigo clube de bolão. Não deu certo - não achou ninguém em casa. Alguns haviam se mudado para apartamentos na cidade e os outros, passavam o tempo em intermináveis consultas médicas ou fazendo exames complicados no hospital. Helmut entendeu que tinha um problema a encarar: ele não estava pronto para ser velho.

Naquele sábado, ele relembrou as tantas coisas boas de seu passado e se interrogou sobre o que lhe havia reservado o futuro. E quando os filhos e noras chegaram para a visita dominical, ele estava pronto.

***

Desde o ano anterior, os filhos decidiram vender o casarão da família e comprar um apartamento na cidade para Helmut morar. Ele demorou a digerir a ideia de abandonar a casa onde passara a maior parte da vida, mas reconheceu que era a coisa certa a fazer. Afinal, quem precisa de duas salas, quatro quartos e três banheiros?

Mas, naquele domingo, as coisas ficaram estranhas. Em lugar de um novo apartamento na cidade, os filhos chegaram com uma novidade. Mal sentaram e o filho mais velho falou por todos: inauguraram um novo e moderno resort na cidade, feito especialmente para a terceira idade, com todos os confortos que se possa imaginar. Havia piscina aquecida, jogos de salão, TV a cabo, pista para caminhadas, enfermeiras e UTI 24 horas, etc, etc.

Helmut coçou a barba e aprumou-se no sofá. Olhou com carinho para os filhos e noras ao seu redor. Quando o filho do meio retirou da pasta uns papéis e folhetos coloridos, ele se levantou:

"Queridos, sei que vocês querem o melhor

para mim, mas eu tenho planos..."

Muitos entreolhares. Helmut continuou:

"Metade do dinheiro da venda da casa vai para um fundo de investimento em nome de meus netos, e sei o que fazer com a outra metade..."

Filhos e noras, todos mudos e em suspense. Parecendo se divertir com a situação, ele completou a frase:

"...vou comprar um veleiro e viajar

para os Mares do Sul."

No silêncio na sala, se poderia ouvir um alfinete caindo no chão.

"Vocês sabem que sempre gostei dos quadros de Gauguin.

Vou repetir a viagem que ele fez ao Tahiti.

Em um ou dois anos, estou de volta."

***

O primeiro e-mail de Helmut chegou um mês depois que a família se reuniu no cais do porto para ver o veleiro Forever Young sumir no horizonte.

Dizia simplesmente:

 

"- Estou adorando os Mares do Sul. Não me esperem para a ceia de Natal."

***

"A cada manhã, ao acordar, eu devo tomar uma decisão. Posso passar o dia na cama, antecipando as dificuldades que terei com as partes de meu corpo que não funcionam, ou me levanto da cama, agradecido pelas partes que ainda funcionam. Eu acredito que cada dia de nossa vida é uma dádiva e mesmo que eu já não consiga enxergar com clareza, imagino um dia inteiro pela frente para recordar os bons momentos da vida que tenho guardado na memória."

Quando chegaram ao minúsculo quarto, com poucos móveis e uma cama estreita, Fermino das Dores notou o pequeno vaso enfeitado com uma única flor e um sorriso ainda maior tomou conta de seu rosto.

Sentou-se na única poltrona e continuou falando para os filhos silenciosos e para a cada vez mais aturdida atendente:

"Imaginem a velhice como uma conta bancária. A gente saca daquilo que depositou durante a vida inteira. O conselho que dou para vocês, que são jovens, é que a cada dia que viverem, depositem felicidades na conta corrente de sua memória. Assim, terão muito que sacar quando ficarem velhos. Devemos fazer com que esta conta corrente de nossas vidas cresça sempre e cada vez mais."

E, concluindo, meneou a cabeça:

"Eu ainda deposito um pouco a cada dia."

Quando os filhos se retiraram, meio chorosos, Fermino das Dores continuava sorridente, examinando os poucos pertences de seu novo quarto. Pela janela, ele avistava as grandes araucárias ao redor da casa e calculou que deveriam ter idades iguais à sua.

Ao desfazer a pequena mala, a atendente encontrou em cima das roupas um cartaz já um tanto amarelado pelo tempo.

Gentilmente, ele tomou o cartaz das mãos da atendente, colocou-o junto ao vasinho na mesa de cabeceira e se afastou um pouco, ajustando os óculos de grossas lentes.

A atendente debruçou-se sobre seu ombro para ler as letras em vermelho:

Cinco regras para aumentar minha conta corrente:

1 - Libertar o coração dos rancores

2 - Livrar a mente de preocupações inúteis

3 - Viver com simplicidade

4 - Esperar pouco da vida

5 - Dar o mais que puder

Quando a atendente da casa de repouso fechou suavemente a porta do quarto, Fermino das Dores estava trocando a água do pequeno vaso com a flor quase fenecida.

Why do people talk of the horrors of old age? It's great. I feel like a fine old car with the parts gradually wearing out, but I'm not complaining,... Those who find growing old terrible are people who haven't done what they wanted with their lives.

(Martha Gellhorn)

Si pudiera vivir nuevamente mi vida,

en la próxima trataría de cometer más errores.

No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.

Sería más tonto de lo que he sido, de hecho

tomaría muy pocas cosas con seriedad.

Sería menos higiénico.

Correría más riesgos, haría más viajes,

contemplaría más atardeceres, subiría más montañas, nadaría más ríos.

Iría a más lugares a donde nunca he ido,

Comería más helados y menos habas,

tendría más problemas reales

y menos imaginarios

 

Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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