Laboratório vivo

      Confesse: se você tivesse um tracinho sequer de qualquer um de seus artistas favoritos na parede, não estaria mais feliz? Mesmo que tivesse sido …

img src="fotos/coluna_clo_02_09.jpg" align="right">      Confesse: se você tivesse um tracinho sequer de qualquer um de seus artistas favoritos na parede, não estaria mais feliz? Mesmo que tivesse sido um acaso para ele? Um dos maiores designers gaúchos costuma dizer e repetir: se foi por acaso, não é design. Porém, para uma artista perfeccionista, que a vida inteira perseguiu as leis exigentes da qualidade até a exaustão, mesmo o acaso é premeditado. Seu trabalho, sempre sensível a ponto de nos emocionar para sempre, está representado na exposição Acaso, na Galeria Lunara, a sala da tremonha, no Centro Cultural Usina do Gasômetro, Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A exposição e, complementarmente, o catálogo, extremamente bem feito e produzido graficamente, trazem uma forte lembrança de trabalhos anteriores. Realistas como Santa Soja, simbólicos como Empreendedores, trágicos como O Funeral de Olinto Soiteira, divertidos como Retratos de Casamento e plásticos como A cor da Impermanência.
      O acaso, que sempre foi parceiro da criação, não teve, em outras ocasiões, um espaço tão merecido, constantemente maquiado em nome das escolhas conscientes, do trabalho técnico, do olhar mais racional. Na verdade, a intuição de Jacqueline Joner foi reconhecida agora pela própria artista, que passa a aceitar acontecimentos acidentais como obras sensíveis, resultados de todas as circunstâncias que envolvem um trabalho de fotografia. É uma homenagem ao meio, aos produtos químicos, ao cheiro, à densidade dos líquidos, às paredes do laboratório. Quando tudo lembra uma maternidade, um hospital, como que para completar a trajetória da vida, lembra também a morte, embebida para sempre em formol.
      Não se trata de mitificar o artista, mas sim de reconhecer seu trajeto. Falamos de Jacqueline Joner, hoje verbete da Encyclopédie Internacionale des Photografes de 1839 à nous jours (Editions Camea Obscura). É só checar e conferir.
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