Meninas voadoras

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"O medo é um tigre de papel.

Você pode fazer tudo o que decidir fazer."

(Amelia Earhart)

Coragem, ousadia e empreendimento não são predicados exclusivos das mulheres empoderadas de nossa atualidade. Ao voltar a páginas passadas do século XX, nos deparamos com mulheres com M maiúsculo, com um certo tipo de atrevimento que deve ter despertado ódios e inveja no universo masculino daqueles tempos.

Um livro lançado recentemente, Fly Girls, de Keith O'Brien, presta uma nostálgica reverência às aviadoras pioneiras que, contrariando todos os preconceitos, ajudaram a criar a Idade de Ouro da aviação nos anos 1920 e 1930. Seus nomes já caíram no esquecimento, a não ser por uma exceção, Amelia Earhart, cuja saga assombrou e inspirou aviadores em todo o mundo. Mas seus feitos heroicos eclipsaram a memória de outras aventureiras que se atreveram a seguir seus voos.

Em 1928, viviam nos Estados Unidos cerca de 29 milhões de mulheres adultas, das quais apenas uma dúzia possuía licenças de voo. Já existiam mulheres na indústria, em lojas e até nas forças policiais. Mas no fechadíssimo mundo dos aviadores, a chegada das mulheres foi recebida com incredulidade e insultos. Keith O'Brien pesquisou os apelidos mais usados para as jovens aviadoras. Não são nada animadores:

'Anáguas Voadoras', 'Joaninhas', 'Borboletas', 'Pó-de-Arroz' e, claro, 'Fly Girls'.

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Mas as esquecidas Fly Girls carregavam nome e história: Ruth Nichols, Louise Thadn, Ruth Elder, Florence Klingensmith, sem contar a mais famosa de todas, Amelia Earhart. Suas trajetórias e experiências são distintas: Ruth Nichols era uma socialite e debutante de New York; Louise Thadn vendia carvão no Kansas, Elder estava se recuperando de um divórcio e Florence Klingensmith trabalhava em motores de avião. Quanto à Amelia Earhart, estava desempregada em Boston.

A descrição física das aviadoras mostra uma admiração temperada com machismo: uma era 'loura e jovem', outra, 'jovem, alta e delgada', ou, 'muito jovem e bonita, sedutora e sulista'. O estilo do que vestiam era descrito no mesmo tom: 'usam saias que drapejam', 'tem vestidos com decotes muito baixos' ou, ainda, 'suéteres justas demais'.

Mas pouco tempo depois, as preconceituosas descrições cederam espaço a relatos entusiasmados de façanhas em travessias oceânicas, voos de longa distância costa-a-costa ou em vertiginosas acrobacias ao redor de pilares de pontes ou skycrapers. As meninas cometiam outros tantos atrevimentos, como quebrar recordes masculinos em altitudes. E voavam tão alto que era preciso carregar tanques de oxigênio em suas cabines.

Os esforços e sacrifícios daquele pequeno grupo de destemidas aviadoras demoraram a ganhar reconhecimento. Elas não viveram para ver os frutos tardios de sua coragem, como a admissão de mulheres nas forças aéreas e, bem mais tarde, na exploração do espaço. Mas por décadas, as Fly Girls gastavam mais tempo em terra, implorando por patrocínios e empréstimos de aeronaves do que fazendo o que mais amavam na vida - voar.

Bem antes de seu trágico fim, a pioneira Amelia Earhart desabafou como era penosa a busca de ajuda de patrocinadores ou fabricantes de aviões.

E aconselhava as seguidoras:

"Quando bater à porta destes magnatas,

melhor carregar um machado.

Você talvez precise abrir caminho à força."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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