O garçom siciliano

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Ele era o garçom predileto de meus amigos, que frequentavam aquela cantina há uns 10 anos ou mais. Que se orgulhava de ter aprendido a cozinhar enquanto lavava pratos em uma pousada de marinheiros em Palermo. Até que, cansado dos maus humores do patrão, jogou fora o avental, embarcando como clandestino em um cargueiro para o Brasil. Arranjou emprego em Santos, recomeçou como ajudante de cozinha e depois como garçom. Mas, até hoje, e sempre, os olhos de azul mediterrâneo de Guido Montini ficam úmidos, quando ele lembra a comida de sua terra.

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A cantina frequentada pelos meus amigos pertencia aos irmãos Tetta, originários do Lazio e dedicados a preservar a culinária de suas raízes. Em seu cardápio, apenas os clássicos romanos. Sem lugar para pratos camponeses de outras regiões. Os clientes provocavam:

"- O que teremos hoje, Guido, além de Cacio e Pepe?"

Que entrava direto na brincadeira:

"- Hoje, teremos anchovas frescas da Catânia, temperadas com oli vergine e limão siciliano. Para acompanhar, abobrinhas cozidas no molho de ouriço do mar."

E depois de uma pausa, estudada:

"Para beber, vamos de Corvo Bianco bem gelado?..."

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Brindes e risadas, saudando os delírios gastronômicos de nosso garçom. No entanto, pouco tempo depois, ele depositava à mesa imensos pratos de Spaghetti com Polpetas à romana, silenciando a conversa e aplacando gulas de todos e de cada um. E, para desânimo de Guido, ninguém sentia falta de suas anchovas e zuchini.

A brincadeira se repetia às sextas-feiras, quando o grupo se reunia, após uma semana dura de trabalho na agência. Sempre servidos pelo Guido, que, inevitavelmente, desfilava os cardápios de seus sonhos. O jogo começava com a provocação habitual:

"- Ei, Guido o que vai ser hoje, Rigatone al Sugo?"

Ele, servindo drinques e o antipasto:

"- Podemos começar com uma Caponata de berinjela, pimentão e batatas, temperadas com azeitonas, alcaparras, aipo, cebola e mais os tomates doces Di Pachino.

Depois, Pasta con le Sarde, feita com massa bucatini, sardinhas frescas, funcho e pinhões."

E, quando sentia que audiência estava ganha, engatava:

"- Quando forem à Sicília, a primeira coisa que vão fazer é pedir Granita com Brioche no café da manhã. É um bolinho macio e redondo, que vem com granita, feita com açúcar e limão, aromatizada com amêndoas e morangos..."

Por vezes, até se alongava na descrição das iguarias que habitavam sua memória afetiva. Como quando enveredava pelas maravilhas da culinária de sua Taormina.

Entusiasmado, ficava na ponta dos pés quando falava nos pratos que ajudava a preparar quando aprendiz de cozinheiro, como o Arancini di Riso, que garantia ser uma glória da cozinha camponesa italiana.

Bebericando camparis e caipirinhas, ouvíamos a história da bolinha crocante de arroz frito, que vem recheada com queijo pecorino:

"- Na Sicília, o 13 de dezembro é um dia santo, consagrado à Santa Lúcia. Em Palermo, servimos o Arancini di Riso com açafrão, para dar a cor dourada ao arroz. É herança dos árabes que trouxeram o prato para a Sicília no século X, com especiarias que ninguém conhecia na Europa."

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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