O triciclo

Por José Antônio Moraes de Oliveira

"É trabalho perdido evocar o passado.

Ele está oculto, fora do domínio, disfarçado em algum objeto material que não sabemos qual seja e que, somente por acaso, o encontraremos antes de morrer, ou não o encontraremos nunca."

Marcel Proust, "O Caminho de Swann".

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Ele estava escondido, entre um armoire francês caindo aos pedaços e uma pilha de discos '78 empoeirados. Mas o pequeno triciclo vermelho parecia novo em folha, como estivesse ter sido largado ali há pouco, por uma criança cansada de brincar. E também parecia exatamente igual ao mesmo triciclo que, por muito tempo, habitara minhas memórias afetivas.

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Aquele era um momento estranho, quase surreal. Eu perambulava pelas ruas de uma cidade desconhecida e, de repente, a loja de antiguidades aparecera no caminho. Encantado e surpreso pela descoberta, interroguei o antiquarista, mas ele não lembrava como o triciclo vermelho aparecera em sua loja. E enquanto vagava entre quinquilharias abandonadas pelos donos, me cercavam esquecidas e distantes memórias.

O tio Armando era o que poderia se descrever como um homem quieto. Falava pouco, nem lembro como era sua voz. Passava dias lendo em sua biblioteca ou no jardim, cuidando de roseiras de belas rosas brancas. Parecia que tinha um certo apreço por mim, mas sempre economizava suas palavras. Mas quando falava, a gente não esquecia.

Como, certa vez, quando eu choromingava pelo sumiço de um brinquedo:

"- Teu brinquedo não está perdido.
Está no limbo das coisas".

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Desde então, comecei a prestar atenção nas coisas que sumiam de uma hora para outra, sem explicação. E que depois, apareciam em um lugar diferente de onde as guardara. Quando minha mãe perdia os óculos de costura, me mandava procurar pela casa inteira. Eu fazia de conta que procurava, mas sabia que iriam reaparecer de repente. Mas se falasse isso em voz alta, ganhava um olhar de reprimenda. Com certeza, o tio Armando não contara para ela do limbo das coisas.

Quase adulto, inventei de anotar as coisas desaparecidas. Acabei meio assombrado de como a lista crescia. Até que chegou um momento em que desisti de procurar - eram muitas, a coleção de gibis, o almanaque do Eu Sei Tudo, uma edição antiga de Tarzan, o Rei da Selva, a Parker 21 dos meus 18 anos e até aquele laço de normalista da minha primeira namorada.

Bem mais tarde, quando os filhos procuravam por seus brinquedos desaparecidos, nunca lhes falei do limbo das coisas, pois crianças não querem saber de histórias antigas. Mesmo assim, às vezes, alguns dos brinquedos reapareciam sem mais nem menos - e me faziam lembrar do Tio Armando: Um jogo de armar que devia estar em uma gaveta, aparecia no armário da dispensa. O carrinho azul, nas ferramentas do zelador. No entanto, o triciclo vermelho que rodava para cima e para baixo na Praça da Matriz nunca mais apareceu, sumido e esquecido.                                                        

Até o dia em que entrei em um antiquário em uma cidade desconhecida do outro lado do mundo.

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Autor
José Antônio Moraes de Oliveira é formado em Jornalismo e Filosofia. Atuou em jornal em A Hora, Jornal do Comércio e Correio do Povo. Trocou o jornalismo por publicidade, redigindo anúncios na MPM Propaganda. Diretor de contas internacionais, morou por anos na ponte aérea Porto Alegre/ São Paulo/ Rio/Miami/New York. Foi diretor de Comunicação do Grupo Iochpe e co-fundador do Cenp (Conselho Executivo das Normas-Padrão). Atualmente, reside na Serra gaúcha.

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