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A apelação

Foi bem naquele ano em que o calor chegou sem aviso, surgiu num fim de tarde, surpreendendo pessoas e intrigando observatórios. A primavera mal …

Foi bem naquele ano em que o calor chegou sem aviso, surgiu num fim de tarde, surpreendendo pessoas e intrigando observatórios.

A primavera mal começara, as flores ainda tímidas, receosas de tripudiar sobre o inverno que mal se fora, quando o calor explodiu enquanto o sol se punha. Parecia que a natureza mudara de marcha e os últimos raios de sol estavam sem rumo.

Muito calor. Além do calor, a umidade.

Os dias continuaram se encadeando com calor e mais calor.

As pessoas se olhavam com estranheza, as palavras eram desnecessárias, os olhos perplexos trocavam estupefação.

Impossível esquecer, foi naquele ano que as coisas começaram.

A morte do Zeca. Aquilo que parecia uma simples infecção, uma espinha espremida, suposta como quisto sebáceo, tomou proporções maiores que o calor e enterrou o Zeca.

Duas semanas depois, diarréia e desidratação levaram o filho do Zeca às vésperas de completar nove meses.

Lindalva, 29 anos, sem marido e sem filho, começou a falar sozinha. Falava mais com ela mesma que com os outros. Aliás, com os outros não falava, só respondia.

Foi bem nesse trecho que Tiago, o escritor, se deparou com o vazio. Olhou para a parede e o calendário confirmou: restavam menos que 24 horas para entregar um conto à revista.

Ele bem que tentara situações diversas, mas nada ia além do início. Começou o desespero, sentia-se oco.

Lembrou-se de Vera, a amiga e colega de Letras, com quem mantinha uma permanente troca de idéias e resolveu apelar:

Cuore:

Ajude-me, por favor.
Não tenho a mínima idéia onde essa desgraça termina.
Se é que termina…
Diga-me você.
Beijos expectantes.

T.

Tiago:

É, o texto tem tanta desgraça. O Brasil está cheio delas, é uma bela inspiração, o problema é a escolha.

O autor fica sem saber como terminar, já que as desgraças não param e ele fica tomado pelo desespero.

Talvez a loucura da Lindalva possa continuar, ela falando sozinha… A irmã percebe que ela só fala de um amor antigo, do primeiro namorado que morreu num desastre de trem. Em cima disso, o clima de desgraça fica preservado.

Beijos solidários.

V.

Tiago ficou pensando na desgraça da Lindalva, procurando um caminho para concluir o conto.

Quantos anos tinha Lindalva quando o namorado morreu no acidente? Onde eles moravam? O trem ia de onde para onde? Quanto tempo depois ela conheceu o Zeca? Ela amava o Zeca?

Tiago parou por aí, duas palavras saltaram para a sua cabeça: metalinguagem e interatividade.

Seus dedos correram ligeiros para o teclado e concluíram:

Leitor amigo: muitas respostas podem agravar o estado da Lindalva ou salvá-la. Só depende de você. Seja o que for, escreva para [email protected]

Grato.

Autor

Mario de Almeida

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