
Desde o incidente dos garanhões enroscados no arame farpado, nunca mais enxerguei o tio João Ramos, que o avô Patrício descrevia como “um moço estranho, que conversa com os cavalos como se gente fosse”. Quem aparecia de tempos em tempos na fazenda era a tia América, com aqueles seios grandes e seu riso argentino. Mas, dos feitiços de João Ramos, ninguém dizia uma palavra.
Vários anos haviam se passado desde minhas últimas férias na fazenda do Passo Grande. Eu me sentia mais adolescente do que criança e os deslumbramentos de outros verões pareciam não ter o encanto de antes.
O tempo havia mudado as coisas de uma forma estranha, confundindo minhas lembranças. Os tios agora tinham os cabelos grisalhos, o gado dividia o campo com lavouras de arroz e não se via tropilhas de chucros correndo coxilha abaixo e coxilha acima. Mas a paisagem era a mesma – os campos a perder de vista, o guincho metálico do catavento e o vento sul assoviando nas frestas do telhado.
Meu avô já estava com 90 anos. Ninguém sabia direito a data de seu aniversário, uns diziam que era entre o Natal e o Ano Novo, mas não se podia jurar. Eu lembrava as férias na fazenda como dias de alegria e música. Mal terminava a tosquia das ovelhas, os peões já montavam barracas para as carreiras em cancha reta. E, quando se aproximava o 6 de janeiro, era a vez dos cantadores do Terno de Reses, recebidos por gritos das crianças e risos de felicidade dos mais velhos.
Naqueles dias, o avô vestia bombachas de festa e sua rastra com fivelões de prata. Se postava sob o arco da frente da casa para receber as visitas – parentes distantes e gente da vila, todos sobraçando mimos e agrados. As crianças corriam ao redor da casa e, dos galpões, vinha o choro de uma gaita tocando a chimarrita. Dias que agora pareciam perdidos no passado.
***
Aos meus olhos adolescentes, a fazenda estava diferente. O avô, meio entristecido, se queixando do médico que o proibira de montar a cavalo e de lidar com o gado.
No mesmo dia em que cheguei, o avô me chamou para conversar. Sentamos na varanda do arco de entrada, ele querendo saber de meus estudos e das coisas da cidade grande. Logo percebi que evitava falar de si mesmo e das dolencias que o atormentavam. Lá pelas tantas, juntei coragem e perguntei do tio João Ramos e dos garanhões sumidos. Ele pousou em mim seus olhos cor-de-aço, sorriu e mudou de assunto, passando a dizer coisas que eu não entendia.
Mas, ao mesmo tempo em que ouvia sua voz rouca e doce, ficava a pensar naquela noite, quando todos galoparam até os fundos do campo para acudir os cavalos encalacrados. Lembro que o avô voltou, como que assombrado, falando em brujerías. E ele não era homem de se assustar com pouca coisa.
Interrompidos pela sineta do almoço, fomos para a cozinha. Ali, tudo parecia igual aos tempos de criança – tios e primos ao redor da grande mesa. Muitas travessas, com assado de cordeiro, morcilhas, arroz de carreteiro, espigas de milho, batata doce e purê de abóbora.
Na hora da sobremesa, minha avó me serviu de uma tijela cheia de ambrosia cor-de-ouro. Os anos haviam branqueado seus cabelos, já não sorria como antes, mas não esquecera do meu doce favorito – salpicado com cravo-da-India, pedaços de canela e hortelã-pimenta de sua horta. A mãe sorriu do outro lado da mesa e as coisas pareciam ter voltado a ser como sempre foram.
Depois do almoço, fui até os galpões da peonada, mas não encontrei nem o velho Ermenegildo nem o negro Edu. As selas e os apetrechos estavam encerados e arrumados em seus lugares, os pelegos escovados, mas o lugar parecia triste, sem vida.
***
Quando a casa ficou quieta, fui bisbilhotar ao redor e notei que a porta do galpão das carretas estava aberta. Entrei e vi o que parecia ser um velho carroção, coberto por uma lona suja e empoeirada. Espiei em baixo da lona e fiquei arrepiado. Era a charrete azul-e-branca de João Ramos.

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