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A cidade que perdi

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Os poetas e escritores de minha geração sabiam como bem celebrar os encantamentos de Porto Alegre. A eles costumo recorrer, quando esqueço dos nomes, cores e flores de minhas antigas andanças pela cidade. Que era prazeirosa e amável, ainda guardando seu jeito de ser dos tempos da Província de São Pedro. E que sobrevive nos versos do poeta Mário Quintana:

“Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…”.

E na poesia em prosa de José Fogaça:

Porto Alegre me tem, não leve a mal

A saudade é demais, É lá que eu vivo em paz”.

***

A cada vez e sempre que pego a estrada, as saudades apertam. É quando recorro às cenas esparsas de um passado que permanece vivo:

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Com os amigos fraternos Prunes e Martau na mesa de janela do Bar Hubertus. Tomamos chopp bem tirado, nos regalando com os sanduiches de lombinho e salada russa.

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Em um banco da Praça da Matriz, com um olho atento na filhota que despenca lomba abaixo, pedalando em seu triciclo vermelho.

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Ou nos Moinhos de Vento, no Jockey Clube do Prado que não existe mais. Com o pai que aposta nos cavalinhos da Escuderia Azul-e-Branco no páreo dos 1.200 metros.

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Esperando para entrevistar o governador Leonel Brizola, que convocou a Brigada Militar para defender o Palácio Piratini dos blindados do III Exército que estão subindo a ladeira.

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É uma matinê de domingo, no Cine Baltimore, assistindo “A Dama de Shanghai”. Ao mesmo tempo que tento um flerte com a garota da fila de cima.

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Agora imóvel e quase sufocando no palco do Theatro São Pedro. Enfiado em uma armadura de lata, no papel do fantasma do pai de Hamlet, o príncipe da Dinamarca.

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Mas fica tarde, os sonhos pesam, os olhos reclamam.  Uma pausa para respirar e reler o que está escrito. Mas me pergunto:

” – Fui eu mesmo que escrevi isto?

De onde vieram tantas lembranças?.

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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