Minha última crônica foi uma pequena oferenda a Paschoal Carlos Magno, em meio às comemorações do centenário do seu nascimento. Entreguei para vocês o apelido com o qual ele me distinguia: Vaca Sagrada. Esqueci-me, ou a modéstia omitiu, o início de uma amizade que se prolongou até o adeus.
Coube-me a alegria de inaugurar o Teatro Arthur Azevedo, em 1956, em Campo Grande, Zona Oeste do então Distrito Federal, dirigindo uma peça do próprio, “A Almanjarra”. Paschoal acompanhou, na inauguração do teatro, o então prefeito Negrão de Lima.
Entusiasmado com o espetáculo, Paschoal decidiu que teríamos que fazer uma apresentação no seu Teatro Duse, em Santa Tereza, para o qual – surpresa nossa – carregou toda a crítica teatral do Rio.
Essa apresentação colocou numa vitrine o então bancário Rogério Fróes, talento de ator mais que comprovado nestes últimos 50 anos. O espetáculo, depois premiado no mesmo festival que revelou para o Brasil Suassuma e seu “Auto da Compadecida”, além de só receber elogios pela imprensa, deu-me de presente amizades valiosas e definitivas, como as de João Augusto, no Diário Carioca, na Bahia e onde mais esteve, e Arnaldo de Carvalho, da maior revista do seu tempo, “O Cruzeiro”. Arnaldo, além de critico teatral, tinha uma coluna onde catava acontecimentos esdrúxulos do mundo e era filho do poeta santista Vicente de Carvalho. Pessoa delicada: em vez de colocar na sua crítica super entusiasmada os pequenos reparos à minha direção, preferiu fazê-los pessoalmente e sem testemunhas.
A partir desse empurrão na minha vida profissional, Paschoal inseriu, para sempre, esse misterioso “Vaca Sagrada” na minha identidade.
O Jornal do Brasil, dia 17 passado, homenageou a memória de Paschoal com textos e fotos de uma página, sendo que minha filha, Rachel Almeida, foi responsável pela reportagem. Ela pediu-me sugestões para testemunhos e conseguiu alguns, como a do escritor e jornalista Fausto Wolff que, ao mudar-se de Porto Alegre para o Rio, foi hóspede de Paschoal. Sérgio Brito, que em 1948 integrou o elenco do “Hamlet” que revelou Sérgio Cardoso, fez uma brincadeira, dizendo que o Teatro do Estudante do Brasil “descaminhava” os estudantes de suas futuras profissões. Sérgio Brito era estudante de Medicina.
Antonio Abujamra, pela sua direção de “A Cantora Careca”, de Ionesco, para o Teatro Universitário de Porto Alegre, ganhou o prêmio de melhor diretor do Festival de Teatro do Estudante, realizado no Recife, por Paschoal Carlos Magno. Junto com o prêmio, uma passagem para a Europa.
Abu, como o chamam os mais chegados, é caipira de Ourinhos, São Paulo, mas, menino ainda, fugiu de casa e acabou sendo criado em casa de um irmão, em Porto Alegre. Nessa fuga, inseriu a rebeldia na sua identidade. Sua notória condição de provocador veio pouco depois, uma resposta da inteligência aos menos dotados ou uma maneira direta de arrancar verdades dos interlocutores. Antes do ingresso na faculdade já mostrava vocação como intérprete, ficou famoso entre colegas como o cara que dizia Fernando Pessoa como ninguém e, depois, num surto nacionalista, Drummond.
Universitário, conseguiu de Flávio Tavares, que presidia a União Estadual de Estudantes, do Rio Grande do Sul, a criação do Teatro Universitário da UEE e conseqüente subvenção. Foi com essa subvenção que Abu me levou para Porto Alegre, quando dirigi “O Provocador”, de Paulo Hecker Filho, no qual ele era um dos intérpretes. Flávio, hoje escritor e jornalista renomado, interpretou, na guerrilha, o papel de “Dr. Falcão”, até ser ejetado do país na troca por um embaixador gringo. Confesso que apoiei essa criação do Flávio com alguns mensalinhos.
Graças ao prêmio ganho no Recife e a uma bolsa, Abu mandou-se para Madri.
Insatisfeito com o que não aprendia, mas já leitor de Antonio Machado
“Caminhante, são os teus vestígios
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho
se faz caminho ao andar.”
caminhou por toda a Espanha e prosseguiu pela África: Marrocos, Argélia, Tunísia
e Egito e de lá, por navio, Marselha, onde o cônsul brasileiro era João Cabral de
Mello Neto, em cuja porta bateu:
“-“Sou um diretor de teatro estudante, estou doente, não tenho onde morar,
não tenho dinheiro pra nada.”
Abu, hóspede de poeta por 28 dias, confessou que aprendeu, no perido, mais poesia
que numa universidade e ganhou, por mérito de João Cabral, uma bolsa de
teatro em Paris. Jean Vilar e, depois Roger Planchon – este então todo voltado
para Brecht – ensinaram o caminho das pedras para o caipira paulista que,
depois de um bom tempo com Planchon , por insistência dele, foi parar no
Berliner Ensemble, na Alemanha Oriental. Voltou para o Brasil e eu volto agora
para a origem dessa crônica. Abu, na matéria da minha filha, conta que
o prêmio ganho no Festival realizado por Paschoal, no Recife, em 1956 – segundo
ele, abriu-lhe as portas para essa saga toda. De mim, recebeu este e-mail:
cujo assunto era: “Pô cara, amnésia?
Véio, tu ganhas um prêmio de melhor diretor no Recife, ganhas bolsa, vais prás
Oropas, ficas uma cacetada de anos, quase matas Belinha* de saudades e esqueces
a data? 1956 foi o ano em que montaste “À Margem da Vida”, pô! 57 foi o ano em que
me levaste para Porto Alegre, quando montei “O Macaco da Vizinha”, apresentado
junto com a tua “Cantora” no no Recife.
Acorda, véio e toma uma dose tripla de NOOTROPIL:
1958!
Beijos.
Véio Mario” *Namorada, na época, hoje esposa.
Resposta:
“Mário, você é maravilhoso.
Outro velho, Abu.”
Claro que só sou maravilhoso para os grandes amigos, mas tenho certeza que
não esqueço datas, exceção ao ano em que nasci que, por muito remoto, esqueci.
Inté.


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