Alessandra Negrini vestiu fantasia de índia para desfilar num bloquinho de Carnaval em São Paulo. A atriz é uma ferrenha combatente, ao menos no âmbito das redes sociais, ao governo Bolsonaro. Em 15 minutos, o implacável júri da Internet já fazia campanha para “cancelar” a atriz, especialmente entre aqueles que acreditam que utilizar uma fantasia de índio significa uma apropriação cultural e que isso precisa ser desconstruído. Há umas duas semanas, Pedro Bial opinou sobre ‘Democracia em Vertigem’, documentário brasileiro indicado ao Oscar. Bial disse que não gostou do filme. Prontamente, foi “cancelado”.
“Cancelar” é mais ou menos como boicotar. Se uma figura pública, uma instituição ou até um estabelecimento comercial se manifesta contra aquilo que a pessoa pensa ou tem um dono que é contrário àquilo que a pessoa pensa, ativa-se o modo cancelar e, pronto, não se segue, não se consome ou não se fala sobre a pessoa. Sou favorável às pessoas terem liberdade para assistir, ouvir, ler e comprar as coisas conforme o direito delas. Mas a “cultura do cancelamento” tem algo que é mais forte que esse direito de ir e vir. As pessoas não estão mais dispostas a entender e conviver com aquilo que é contraditório.
Há, neste sentido, uma relação hipócrita que gera um dilema entre quem diz e o que se diz. Um exemplo disso foram as manifestações machistas do ator José de Abreu, profundamente relativizadas até pelo movimento feminista. Passada de pano das boas sem uma revolta mais contundente de boa parte da esquerda brasileira simplesmente porque Zé de Abreu é de esquerda. O cancelamento é seletivo. O mesmo ator cuspiu na cara de uma mulher e, depois, num dos movimentos mais ridículos que eu vi, autoproclamou-se um “Presidente da República” alegórico. Com apoio dos canceladores profissionais.
Quando um segurança do Carrefour matou um cachorro, a campanha era por boicotar o supermercado. A Revista Exame publicou, em 2017, uma matéria sobre a rede. Ela empregava no ano 80.085 pessoas. Deixemos por 80 mil funcionários. Boicotar o Carrefour por causa da imbecilidade de um segurança, que deve ser afastado, punido e sofrer com as consequências de um ato criminoso, é no mínimo ingênuo. Para não dizer egoísta. Se ninguém compra no Carrefour, lojas fecham. Os preços do supermercado também são mais baratos em comparação com outras redes. A cadeia é: fecha loja, demite gente, tem crise, compra-se em outro lugar, gasta-se mais e aqueles que só podem comprar no Carrefour terão que adaptar sua renda a novos valores. Mas, claro, tem que cancelar.
Pedro Bial foi um dos mais respeitáveis jornalistas brasileiros. Boa parte dos jornalistas que resolveram “cancelar” o apresentador não chegam perto, em termos de qualidade, relevância e significado de Bial. Se a opinião dele não é, como cheguei a ler, “democraticamente significativa”, pombas, foi só uma opinião dele. Nessas horas, não se pensa mais em qualidade. Nem nos fins. Só nos meios, naquilo que as pessoas não conseguem mais neste País: entender que nem todo mundo é igual.
A cultura do cancelamento é mais uma prova dos tempos atuais e parte de uma geração que tem fobia do “não”. Criaram na cabeça uma ideia de “mudar o mundo pela tela de um smartphone”, mostrando indiferença pelos contextos maiores – e, portanto, não os entendendo – e desprezo por qualquer coisa que não seja igual ao próprio espelho. É a pior forma de narcisismo: aquele que só aceita o que é igual. A história do mundo demonstra que todo crescimento também vem do conflito e a própria questão do espírito reafirma que as evoluções são feitas a partir de todas as experiências, convívios e elementos que não estão em nós, que são apreendidos destas relações.
A geração do cancelamento quer mudar o mundo para que ele seja só uma extensão do seu próprio quarto. Ter senso crítico não é ignorar, desprezar ou fazer inexistir aquilo que não está em nós. Está, justamente, em ponderar, observar, criticar e aceitar que os seres humanos são diferentes e que “cancelar” é abstrair uma realidade em que, veja só, a gente não é o centro do universo. E, quando se derem conta disso, vocês sabem que não vai ser possível cancelar o universo, certo?
