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A estranha – O acerto de contas

Paula, escondendo por trás dos óculos escuros os olhos inchados, esperou o avião que levava Nestor sumir por dentro do céu azul daquele outono …

Paula, escondendo por trás dos óculos escuros os olhos inchados, esperou o avião que levava Nestor sumir por dentro do céu azul daquele outono em Nova York. Estivera certa em fugir da despedida no aeroporto e, escondida, assistira à sua partida. Esperava que Nestor, ao ler sua carta, entendesse o  gesto.

Fora muito difícil para ela apenas corresponder, ainda no apartamento do hotel, ao beijo pouco mais que burocrático com que Nestor, de saída para o aeroporto, complementou o “até já” que, não suspeitava ele, era o adeus na acepção exata.  

Assoou o nariz e, vagarosamente, encaminhou-se para o ponto de táxi. Já de volta ao Waldorf, percebeu que o assassinato de Pablo não secara para sempre as suas lágrimas. Um sorriso escapou de seus lábios ao perceber o paradoxo: perdera Nestor e recebera de volta as lágrimas das perdas. 

À medida que o táxi aproximava-se da Quinta Avenida, sua mente ia se distanciando de Nestor e voltava-se para os próximos passos, todos ligados ao plano decidido há mais de um ano. 

Quando o motorista abriu a porta para que desembarcasse, Paula já listara tarefas que queria executar no menor prazo possível.

No elevador, ao sentir-se impaciente para a ação, achou que era bom ter muito com o que se ocupar, depois daquela dolorosa, mas compulsória separação.

Uma rápida ducha, uma calça jeans, uma blusa casual e tênis, pegou uma bolsa de alça e dirigiu-se para a agência do correio onde mantinha sua caixa postal. Mesmo como Regina, não deixava muitos vestígios quanto à sua presença em Nova York. Assim que chegara de Assunção, alugara um loft em Chicago e – como Regina – pagara um ano adiantado. 

Esperava agora um aviso para ir a Miami, onde encontraria Jean, um francês radicado lá e antigo homem de confiança de Pablo. Deveria, em seguida, dar um pulo em Zurique, sacar muitos milhares de euros e, então, ir a Marselha.

Dois envelopes aguardavam Paula na sua caixa. Em um, seu advogado no Rio dizia não haver novidades quanto ao seu processo. O outro era a confirmação que aguardava: “Tudo, inclusive valor, confirmado. Marselha aguarda horário e data para o acerto definitivo. Ligue-me para Miami, venha e aqui darei os detalhes. Até a vista. J. Rasgue este envelope e bilhete”.

Procurou um telefone público e ligou para o celular de Jean. Avisou que  ligaria mais tarde para dar o vôo na manhã seguinte, que ele reservasse um apartamento para Regina Pádua Ramos e a esperasse no aeroporto.

Enquanto se dirigia para uma agência de turismo, lembrou-se que não tivera coragem de revelar para Nestor aquela sua antiga decisão. Uma decisão tão irreversível que não se enfraquecera no decorrer de tanto tempo. Essa  espera eliminava possíveis suspeitas, mas alimentava o ódio.

Em Chicago, já de volta de Miami e preparando-se para as viagens Zurique-Paris-Marselha, organizou as idéias: sacaria de sua conta secreta os euros a serem pagos em Marselha onde alugaria um carro, passaria como turista dois dias em Cannes, pegaria um avião em Nice para Paris, com conexão direta para Nova York onde ficaria apenas uma noite. Em Chicago, começaria aquela difícil tarefa de esperar que o amanhã fosse hoje… 

Dias depois, já de volta a Chicago, Paula, carregando apenas uma mala, fechou a porta do loft e dirigiu-se para a garagem onde deixara o carro alugado. Ainda em Cannes, naquela meia agitação do cassino, decidira que iria aproveitar o início do verão e passar uma pequena temporada em Vegas. Achava que sol, piscina, roleta e shows ajudariam a contemporizar a excitação maior da notícia que aguardava. E decidiu gastar tempo indo de carro.

Naquele seu terceiro dia em Vegas, às onze horas da manhã, Paula, que dormira tarde na véspera, acordara tarde.

Apenas de calcinha, como dormira, apanhou os jornais na porta do apartamento e acomodou-se numa poltrona.

Seria difícil, se não impossível, descrever o estado de espírito de Paula, dez minutos depois, ao telefone, com a voz um pouco trêmula, pedir uma garrafa de champagne Cristal brut.

No tapete vermelho, cor de sangue, a página aberta do New York Times noticiava:

“Assassinado o chefe do narcotráfico da Colômbia”.

Autor

Mario de Almeida

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