Mas escrever o quê? Assunto não falta, o que falta é saber sobre que assunto escrever. Assunto é aquilo de que se trata, que é matéria ou objeto de consideração. Assunto é aquilo que desperta interesse, que chama atenção.
Weslei Odair Orlandi
Outro dia encontrei meu amigo, vizinho e leitor Eduardo Lorca.
Eu havia acabado de publicar uma crônica sobre a falta de assunto e ele disse-me que, por coincidência, quando estudava Inglês, ao ter que escrever uma dissertação, acabou redigindo um texto sobre a falta de assunto.
Disse-lhe eu que se alguém se dispusesse a fazer uma pesquisa sobre o assunto mais abordado nas crônicas brasileiras, o assunto falta de assunto iria ganhar disparado.
Comecei a pensar no assunto, na dificuldade do cronista profissional escrever com regularidade, independentemente de ter assuntos à sua escolha, ou mesmo ter um único assunto.
Eu mesmo só tenho um único assunto proibido: escrever sobre aquilo que a imprensa está se fartando de cobrir e que os cronistas estão deitando e rolando sobre ele. Nessa hora, estou fora. Foi o caso da tragédia de Santa Maria, por exemplo, e será, certamente, sobre o novo Papa.
O fato de ter todos os outros assuntos à disposição não ameniza o problema. Falta de assunto vira o caos.
João Ubaldo Ribeiro, o mestre do romance e da crônica, confessa que, aos 17 anos, estreou como cronista num jornal baiano na marra, tinha duas horas para escrever uma crônica sobre qualquer assunto, que é igual a assunto nenhum: lauda e meia, 60 batidas.
O hoje acadêmico João Ubaldo, colunista dominical de O Globo, pelo tamanho do espaço que ocupa no jornal, parece que além de não padecer de falta de assunto, sempre tem assuntos fartos à disposição e vai muito além da sua matéria inaugural: meia lauda, 60 batidas.
Em janeiro deste ano, O Globo publicou, de Mariana Filgueiras, matéria sobre o tema falta de assunto.
Conta ela que Rubem Braga, o papa eteno da crônica brasileira, foi enaltecido pelo poeta Manuel Bandeira ao declarar que o autor era ainda melhor quando não sabia sobre o que escrever.
Rubem Braga não se fez de rogado: “A felicidade é uma suave falta de assunto”.
Mariana foi buscar o testemunho de Clarice Lispector: “Para ela, não havia ninguém melhor que o velho Braga no subgênero de enrolar o leitor”.
Mariana cita alguns não poucos que escreveram sobre a falta de assunto: Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, João Ubaldo Ribeiro, Luis Fernando Verissimo, Machado de Assis, Vinicius de Moraes, Zuenir Ventura e Carlos Heitor Cony. Em desespero de causa, Cony escreveu uma crônica sobre o seu bigode.
Já escrevi algumas crônicas sobre a falta de assunto e, a partir desta, sinto-me cuidadoso em pisar numa seara já cultivada por gênios, mas sempre vou me valer do mestre Rubem Braga:
“Às vezes a gente parece que finge que trabalha; o leitor lê a crônica e no fim chega à conclusão de que não temos assunto. Erro dele. Quando não tenho nenhum frete a fazer, sempre carrego alguma coisa, que é o peso de minha alma, e olhem lá que não é pouco”.
Inté.
Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior que, por desconhecimento meu, saiu sem o crédito de autoria, agora conhecido):
“Olá Mario,
Realmente o texto é o que fala do angolano e a confusão sobre a palavra meia.
Ficarei grato se mencionar a autoria. A referida crônica deverá sair em breve no livro Prosando que está no prelo pela editora Reflexão”. Jansen Viana, Fortaleza
Mario querido, muito bom este “dois em um” com que você brinda os seus leitores hoje. Além da beleza, da graça, do brilho do seu texto, você serve este outro do rapaz de Maputo. Uma delicia.
Não sei se você tem outros textos sobre o ENEM. Eu tenho vários. E estou lhe enviando dois para a sua coleção caso ela não seja melhor do que a minha. Abraço fraterno do Isnard (Manso Vieira), Rio
Português é uma língua complicada. Tem mais exceções que regras. Ulrich Aguiar, Fortaleza
Muito boa, tio, adorei!!! Realmente o “português” tem dessas “armadilhas”…”it’s no mole não”…rsrsrs…kkk Bjs! Michele (J. Freitas Benkendorf), Joinville, SC
Gostei amigo!!! “Não podemos fazer um novo começo, mas podemos fazer um novo fim”. Chico Xavier. Beijos, amigo querido, Claudia Almeida, Rio
Coluna: ainda bem que o africano não precisava de meias, e não perguntou à recepcionista. Texto delicioso, manobras linguísticas ao gosto dos fregueses da linguagem. Humor faz mesmo bem ao fígado e até ao pulmão. Bjs, Vera (Verissimo), Porto Alegre
Grato, Mario. Até parece o samba do crioulo doido… Abs, Pellegrino (José Carlos), São Paulo

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