Na Feira do Livro de Porto Alegre, entre a provinha de um poema com gosto de bacon e outro com sabor hortelã – ali, na barraca da Caixa que imprimiu os versos em papel comestível –, Fu Lana ainda procurava por alguma coisa especial. A oferta nas barracas era de muitos livros lindos, mas sua insatisfação de consumo é infinita. O bolso ficou tímido e queria desaparecer. Mesmo assim, como ela não queria comprar e nem os vendedores vender, gastou rios de dinheiro sem pensar, em cultura transformada em papel.
Ali, pertinho do Santander, na barraca Dulcinéia (ainda com acento), foi onde ela perdeu o freio. Encontrou O Livro Inclinado. A obra tinha este nome, mas estava literalmente de pé, e inclinada, na prateleira. Ela fez até uma foto para provar. Só podia ser uma edição da Cosacnaify. E o livro não estava inclinado por acaso. A história, escrita e editada em forma de versos, originalmente em 1910, por Peter Newell, começava assim: subir uma ladeira demora à beça, porém descê-la vai bem mais depressa. E nisso, uma babá, dessas de chapeuzinho de rendas, deixa solto um carrinho de bebê, com um guri triligado dentro dela. O menino vai apreciando as estripulias que cria com a velocidade e vai atravessando vidros, derrubando frutas, carregando gordas senhoras. Lá em 1910, é claro, o livro não estava inclinado. Mas para a edição moderna, ganhou um novo design.
Fu Lana também se apaixonou pelo imenso volume História do Design Gráfico de Philip Meggs e Alston Purvis, com edição brasileira também da Cosacnaify. A capa tem um revestimento de tecido serigrafado com letras em um tom de azul-claro e, dentro, 717 páginas, algumas a cores, com toda a história do design, desde as cavernas às loucuras de nosso tempo. E tudo impresso na China!
Só podia ser na Dulcinéia. Fu Lana foi contaminada pela visão delirante de Cervantes e de seu Quixote por sua musa. Não via problemas em colocar em suas parcelas de crédito todos aqueles caracteres numéricos, que bem poderiam ser palavras ao vento. Dulcinéia enfeitiçou nossa heroína.
Fu Lana descobriu que, além de distribuidora, a Dulcinéia gaúcha é hoje também editora, já com cinco títulos. De tanto conviver com produtos diferenciados, lançou, por exemplo, O fio. Trata-se de um livrinho impresso em apenas uma lâmina imensa, que se dobra formando as páginas, e tem leitura frente e verso, que também vai e volta. Não basta mesmo contar uma boa história. Além dela ser belíssima – texto e ilustração–, deve também ser bem pensada. A isto chama-se design.
Altair Martins, em palestra na Feira, já disse: estamos em uma crise de referentes, não sabemos em quem acreditar, a figura do narrador se esfarelou. Antonio Hohlfeldt e Maria Regina Barcelos Bettiol, no livro O Século das Luzes, dizem que estamos vivendo uma nova era iluminista, onde todos têm a sua verdade, onde os verbetes enciplopédicos estão abertos, onde não há um uno, mas uma série de conceitos e que todos valem. Assim, os livros contam a nossa história, que vai e vem, e pode ser lida aos saltos ou de forma linear.
Viva o mundo atual. E o design. No entanto, as vendas caíram. É um paradoxo para quem cresce e encontra uma curva contrária. A Feira é mesmo só energia. Vida longa para Dulcinéia.
