Você pode ouvir rock, samba, sertanejo, MPB, música brega, rap, jazz ou qualquer sub rótulo contemporâneo que tinha graça quando havia lojas de discos. Você pode descobrir uma banda no quinto dos infernos do país mais remoto do mundo ou, sei lá, ouvir Beatles. Do Odair José aos Ramones, existe uma coisa que une toda essa gente: o amor. É, talvez, a única temática presente em qualquer estilo musical. A “sofrência” da Marília Mendonça não é muito diferente da “sofrência” de Hey Jude. O segredo é “make a sad song and make it better”. Lembrei do “Alta Fidelidade”, meu livro favorito lá nos anos 1990, quando eu ainda sonhava em ser um crítico musical, fazer listas intermináveis – ainda faço, diga-se de passagem – e viver como uma espécie de outsider pop, numa imagem errada que fazia de improváveis heróis que viviam de livros, discos e nada mais – e um pouco de sociabilidade, que é, no fundo o que a gente precisa. No livro, que é melhor que o filme, o personagem pergunta, em vão: “Eu escuto música pop porque eu sou miserável ou eu sou miserável porque escuto música pop?”.
A música pop, independente do ritmo, por anos e anos, construiu a sua história através das canções de amor. “Detalhes”, do Roberto Carlos, é uma música de amor tanto quanto é “Você é linda”, do Caetano ou “Evidências”, do Chitãozinho e Xororó. Como era “Chega de Saudade”, “Carinhoso” ou “As Rosas Não Falam”. São músicas que sofrem, choram, sangram. Que batem no peito de quem está ouvindo e, dependendo de como a pessoa estiver, vira aquela história do copo meio cheio ou meio vazio. A “sofrência” está ali, nos acordes, na voz, na letra, como a música da sua vida ou aquela que você vai dedicar à pessoa amada. Ou desamada. Na doença ou na saúde, na rotina ou na dor de corno, ela está ali, a canção de amor, para fazer você, ainda que de forma inconsciente, chorar de alegria, tristeza ou raiva. Ou solidão.
Acho engraçado que em tempos de ódio, o que movimenta essa manada ávida pela melhor novidade de todos os tempos da última semana – neste momento, as lives -, é o amor. Que mexe com minha cabeça e me deixa assim ou que serve para que tenhamos um assunto legal com os nossos parceiros, que viraram arrobas, que postam stories, mas que também fazem videochamadas. Tudo no afã de encontrar mais desalmadas carcaças em busca de uma redenção que a gente construiu para nossa narrativa heroica que pavimenta o filme da nossa vida. A gente procura heroísmo, redenção e absolvição o tempo todo. A gente busca isso no amor. E a gente procura isso em alguma letra de música que nos identifique. A “sofrência” virou uma espécie de celebração da nossa consciência, um dispositivo quase que inofensivo, mas que aciona nossos sentidos em busca de algum tipo de sentido para tentar enxergar uma poesia que é tão falsa quanto uma nota de três reais. Mas que a gente precisa. Faz parte da narrativa.
É cansativo sofrer com as coisas concretas. A vida é, em geral, acordar, banho, café, trânsito, trabalho, almoço, mais trabalho, mais trânsito, casa, banho, jantar, televisão/rádio/internet/procrastinação, cama. É porque tem que ser assim, porque, afinal de contas, lutamos nessa nossa narrativa pessoal, além de uma redenção espiritual capenga, por alguma coisa próxima de um sucesso que a gente mirou. Quando há um estado de exceção nesta rotina, que é exatamente o que ocorre agora, sobressalta-se uma quebra nesse piloto automático, gerando uma espécie de tédio pseudoconstrutivo e abalando a narrativa do herói. Ponto para o arco da redenção. Ele entra em ação e cá estamos, falando sobre autoconhecimento, sobre como nos tornaremos pessoas melhores e sobre um novo mundo que a gente nem sabe como será. É um episódio legal nessa série sobre a nossa vida.
Não há redenção sem sofrimento. A música, que se disfarça sorrateiramente de diversão, se explana como uma divindade inspiradora da nossa consciência. A “sofrência” não é real, mas que graça tem a gente sofrer com isolamento, ficar reclamando alto em casa para ninguém ouvir, chorar duas ou três vezes por dia, observar que tudo que a gente faz pode não render nada por não saber o que será o amanhã. Que venha essa “sofrência” lúdica, “sofrência” raiz, “sofrência” do corno injustiçado, “sofrência” do canalha arrependido, “sofrência” que se reveste em “dormir na praça” ou em “queixo-me às rosas”. A embalagem pode ser diferente, mas o destino da mensagem, cruel, impactante, lancinante, é o mesmo: a gente quer sofrer por amor porque isso importa mais que o governo, que a fé, que o espírito, que o ódio que sentimos de tudo isso que está acontecendo. Portanto, fãs de bossa nova ou de breganejo, uni-vos: debaixo do mesmo sol, cantaremos juntos uma canção que nos redime do isolamento, do tédio, da irrelevância, da culpa, da ignorância, do ódio e da incerteza. Pelo bem da nossa redenção!
