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A imagem da pessoa pública

Por Carlos Guimarães

A opinião pública é implacável. Ela sentencia, julga, condena, assassina a reputação. E, depois, pede desculpas, como se aquilo fosse um mero erro de abordagem. É aquela coisa de mirar no canto e chutar no meio. Lembro de alguns casos em que pessoas foram defenestradas pela opinião pública e, depois, como se nada tivesse acontecido, bastava um pedido de “não foi bem isso que eu quis dizer” para tudo ser escorrido por ralo abaixo.

 A opinião pública trabalha, essencialmente, com imagem. O processo imagético das “coisas do mundo” é muito mais forte que qualquer tipo de prática e, até mesmo, ideologia. Estou muito influenciado por “A Rebelião das Massas”, livro escrito entre 1929 e 1930 pelo filósofo espanhol José Ortega y Gasset. Embora não concorde amplamente com o que ele escreveu, seu conceito sobre o homem-massa é perfeito. Grosso modo, é aquele homem sem alma, sem brilho ou espírito, que não faz qualquer reflexão sobre aquilo que o cerca, sobre as configurações sociais ou sobre os processos de sua existência. Como diz a música, “são as pessoas da sala de jantar ocupadas em nascer e morrer”. Ou seja, para a opinião pública, em sentido amplo, aquilo que ela enxerga e absorve – em imagem e discurso – é, em geral, aquilo que ela segue e faz. O homem-massa é, para Ortega y Gasset, o “maria vai com as outras”. O termo é quase utilizado. Na tradução que li, de 2017, por exemplo, termos como “menino mimado” ou “igual a todo mundo” são atribuídos a este ser, medíocre mais por cultura que por vocação.

 Acontece que essa opinião pública, motivada por uma série de “homens-massa”, segue aquilo que se mostra. Num estado de pandemia dentro de uma civilização estruturada por uma cultura óbvia e que respeita a autoridade pelo papel dela – ou seja, quem mais sabe sobre saúde é o médico; quem mais sabe sobre eletricidade é o eletricista; quem mais sabe sobre construção civil é o engenheiro -, o que aconteceria, óbvio ululante, seria ouvir o especialista: os epidemiologistas, infectologistas, profissionais da medicina. Mas, claro que não. Atua-se conforme a atuação daquele que representa a massa. O ídolo, o líder, o chefe do rebanho (ops). A opinião pública, via de regra, é um simulacro do homem público representativo. Ela projeta-se nele. Ela enxerga nele todos os exemplos e procedimentos em qualquer situação: da guerra à paz, ela se torna soldado ou hippie, dependendo de quem disser para ela ser soldado ou hippie.

 A mesma coisa se aplica aos fatos públicos, como, por exemplo, o futebol. O ambiente de campo parece ser estável, respeitando distanciamentos e realizando testes. Mas tem uma coisa que é muito mais forte que qualquer banho de álcool gel antes de um jogo: a imagem que aquilo representa. No episódio mais triste dos 70 anos de Maracanã, o Flamengo x Bangu realizado de forma melancólica nessa pressa de voltar com o Campeonato Carioca, o que se viu foi um exemplo completo do descaso e uma das imagens mais poderosas nesse surto de COVID-19 brasileiro: ao lado do Maracanã, um hospital de campanha.

 A imagem é mais forte que tudo. E o futebol, rico em diversos processos imagéticos, tem força suficiente para que o tiro de quem está mirando na volta do futebol sem consequências saia pela culatra. Ao voltar o futebol, passar-se-á a impressão de que tudo está livre, leve e solto e que, por ter uma atividade que, por essência, visa a congregação, outras coisas poderão ocorrer sem qualquer tipo de problema. Da mesma forma que um homem público, como Renato Portaluppi, treinador do Grêmio, que deveria respeitar o processo de isolamento social por sua condição de grupo de risco, não pode aparecer na praia jogando futevôlei.

 O homem público, que comanda o homem-massa anônimo, não pode aparentar uma situação de desdém ou normalidade. A situação é anormal, atípica e perigosa. A ele, cabe buscar o discurso da conscientização e entender que muitos seguem aquilo que ele diz. O discurso e a imagem são as armas mais potentes que o homem público tem em mãos: para o bem e para o mal.

Autor

Carlos Guimarães

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