“Se alguém causa inda a pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija.”
Versus íntimos – 1901 – Augusto dos Anjos
Ao convidar Augusto dos Anjos para prefaciar este texto, chamo para a provocação aquela que é, provavelmente, a discussão mais latente no breu das almas, nestes tempos de sede e fome dos corações. É o imaginário popular o primeiro a oferecer as evidências da “doença” que faz com que a realização amorosa plena esteja para nós, pobres vidas humanas, como está a linha do horizonte, quando se quer alcançá-la. Vejamos: segundo a sapiência popular, “o homem não deve dar o braço a torcer”, não deve expor os seus sentimentos, sob pena de “ficar por baixo”, de ser um frouxo, um capacho, por assim dizer. E a mulher, caso manifeste claramente o seu desejo e os seus sentimentos, passa a ser “fácil”, ou seja, puta. Esta difícil equação torna o ambiente da sedução uma espécie de jogo em que o vencedor, ou a vencedora, perde assim que vencer.Vencer significa conquistar, mas, para a percepção neurótica e sorrateira, o conquistado é um “capacho imprestável”, a conquistada é uma “ordinária”, como diz o outro. O conquistador, ou a conquistadora, sai vazio e frustrado da experiência, porque não dará tempo para o outro mostrar quem realmente é.
Ora, foi Lacan quem disse que não são todos os dias que se encontra o que foi feito para dar a imagem exata do nosso desejo, que o desejo de cada um de nós é único e indizível, mas só você sabe do que se trata quando “enxerga” o seu desejo corporificado em alguém. Nietzsche assina embaixo das palavras do tio da psicanálise, ao referir-se sobre a figura de Átopos (qualificação dada a Sócrates pelos seus discípulos). Diz Nietzche: Átopos é o outro, (ser humano) que eu amo e que me fascina. Não posso classificá-lo pois ele é precisamente único, a imagem singular que veio milagrosamente responder a especialidade do meu desejo. É a figura da minha verdade; não pode estar contido em nenhum estereótipo (que é a verdade dos outros). Você leu isso? A figura da minha verdade. Um milhão de palavras não dizem nada, mas a figura da sua verdade, quando é capturada pelos seus olhos, em um segundo faz o seu coração disparar e sua mente “ter certeza” que aquela é a pessoa por quem você passou sua vida inteira esperando.
Caso o seu olhar distraído bata na figura da sua verdade, de acordo com os pesos-pesados mencionados aí em cima, você entrou numa fria, por supuesto. Eu, por exemplo, quando vi a Cláudia Laitano numa festa, na casa de uma amiga, reconheci nela o tal do Átopos, do falatório do Nietzsche. Quando fiquei a poucos metros da figura da minha verdade, fui acometido por uma súbita taquicardia, combinada com uma cólica seca no baixo ventre, além de suores gelados e insuficiência respiratória, também conhecida como dispneia suspirosa. Ou seja, fiquei aniquilado pelo terror de perdê-la, depois de descobri-la e, por óbvio, a perdi imediatamente, sem nunca ter tido nada com ela. E por que a perdi? Porque me tornei vulnerável, frágil, destituído de equilíbrio emocional, descoordenado, enfim, um ser rastejante. Nesse estado de ausência de espírito, tentaria tomar vinho pelos ouvidos, caso fosse para frente dela gaguejar palavras desconexas e absolutamente ridículas. A idealização que fiz da Cláudia mostra o princípio da incompletude, o modo como os fetiches e as fantasias sublimes de encantamento são eficientes armadilhas para impedir o crescimento do afeto real e verdadeiro.
Homens e mulheres, ora endeusam, ora demonizam as figuras das suas verdades. Essas atitudes extremadas demonstram as enormes dificuldades que eles têm para lidar com os seus desejos de forma descomplicada. O resultado prosaico disso é uma sexualidade em que os ingredientes excitantes – capazes de incendiar uma transada, por exemplo – entram em oposição com a “pureza” dos sentimentos devotados para aquela mulher, para aquele homem. Quando isso acontece, de forma mais sintomática, a mulher passa a ter dores de cabeça com frequência, e o homem broxa, viste? Broxa para aprender que “a mãe dos seus filhos”, antes de ser mãe, era mulher. Para aprender que ela é a sua mulher, não a sua senhora e muito menos a sua mãe.
Outra consequência da incompletude é o surgimento de hostes de mulheres sozinhas que passaram a viver na pele de uma avatar. Dentro de cenários virtuais, elas fazem tudo o que não fazem na vida real, desde bater papo com desconhecidos até sair com eles para visitar lugares exóticos. O engenheiro, autor de um destes projetos, garantiu que até o ano 2020 os avatares terão códigos digitais que, uma vez combinados entre os parceiros remotos, será possível fazer os bonequinhos transarem entre si, seguindo os movimentos reais dos participantes. Ele numa cama na Austrália e ela em Paris vão poder fazer tudo que não fazem na vida real. Não é lindo? Até advogados avatares já existem (e cobram honorários reais) para cuidar dos divórcios virtuais, e lojas de cachorrinhos onde as avatares solitárias podem comprar um bichinho de estimação e levá-lo para fazer xixi na calçada. O grande desafio da tecnologia agora será o de criar um programa em que os avatares divorciados e solitários possam criar uma nova geração de avatares. Estes tentarão viver em uma terceira dimensão tudo o que a primeira geração não pôde viver, pois o fracasso dos seus criadores, homens e mulheres, se repete nas criaturas, ad nauseam, até que surja um Freud avatar para explicar tudo isso.
Ou até que se insurjam numa revolução em que não aceitem mais reproduzir a demência da sociedade que fica do lado de fora do computador. Sem as neuroses dos seus criadores (pais e mães), os avatares, homens e mulheres, passam a ter vida própria, num mundo em que a troca de afeto, a gentileza, a alegria da convivência e a viabilidade amorosa sejam tão simples e espontâneas como o ato de respirar.

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