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A marvada da lingua

Perdi a paciência com pessoas que aderem rapidamente às novas expressões que surgem para criar uma identidade verbal de uma tribo, ou de uma …

Perdi a paciência com pessoas que aderem rapidamente às novas expressões que surgem para criar uma identidade verbal de uma tribo, ou de uma modinha descartável. Quando alguém me diz “Olha só”, antes de falar, ou vai dar uma má notícia, ou vai me pedir alguma coisa, depois de alguns volteios.

Do ano 2000 em diante, o marketing, tanto comercial como o do entretenimento, meteu o pé na porta e decidiu baixar a faixa etária do target, assim como o nível de educação do alvo. A propaganda, por exemplo, ficou tosca e infantil, como as plateias do Faustão. Com o triunfo da forma, a sociedade como um todo tornou-se espectadora e excessivamente contemplativa, hipnotizada pela beleza sem mensagem, pelo corpo sem alma, pelo histrionismo babaca e a locução histérica. Foi a morte da ideia, da sensibilidade para observar e da inteligência para dizer. Assim foi na música brasileira, na TV, nos jornais, por que não seria na propaganda?

Falar nisso, vi um anúncio estarrecedor, de tão bom, verdadeiro, simples, brilhante e comovente. Fiquei com inveja (queria ter criado), assumo. É um exemplo de inteligência embarcada na comunicação, e, o mais notável, é que a cabeça que fez o anúncio tem bom coração. Só mesmo assim para fazer aquela denúncia brutal para uma campanha que combate e ataca a prostituição infantil. Trata-se de uma foto de uma perninha de criança, com o pé dentro de um sapato de salto alto, vermelho, de mulher adulta. Está numa calçada, de noite. Diz o título: ‘Ela devia estar em casa, na sua caminha’. Imeditamente senti meus olhos umedecerem.

A atual geração de criativos que povoa as agências de propaganda, em geral, não tem intimidade com a palavra.

Vi um comercial em que o locutor dizia para a modelo (com voz juvenil): “…coloca aquela calça ali”. Ele não pede para ela vestir a calça.

Recentemente, vi uma grande campanha em que a voz de ação é a palavra adéqua.  “Este é o plano que mais se adéqua para você e sua família”. Adéqua, além de ser uma palavra feia, não tem força de expressão, não diz nada, é ridícula, não convence. Mas o criativo achou por bem dizer “adéqua”, assim como dizem postergar, em vez de adiar. Se a palavra postergar fosse um inseto, teria 8 patas, 6 de um lado e 2 de outro, e caminharia mancando. – Posterga, meu filho. – dizia o meu avô, alfaiate de mão cheia mas de vocabulário econômico. Postergar encaminha um assunto para posteridade, adiar não, adiar é questão de dias, ou semanas. Mas a garotada prefere postergar, em vez de adiar, prefere barganhar, em vez de negociar, vai estar fazendo, em vez de fazer. Volta e meia diz que fulano é seu subordinado, em vez de seu assistente, diz que tem postura, em vez de atitude, diz que alguém tem problema no subconsciente (modo desinformado de se referir ao inconsciente), diz que alguém é muito gente, e, por fim, me manda um “beijo no meu coração”.

Autor

Paulo Tiaraju

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