Sempre que entro em um restaurante alemão, procuro uma mesa de canto com a placa “Stammtisch”. Quando a encontro, lembro de meu pai e de seus amigos remadores. Eles se reuniam aos sábados no Bar Lilliput, que ficava no térreo do Novo Hotel Jung, na Otávio Rocha, ali onde os bondes faziam a curva para dar a volta na Praça Quinze. O lugar cativo deles era a grande mesa de canto, que chamavam de “Stammtisch”, ou para nós, que não falavamos alemão, a “mesa tronco”.
Acompanhei meu pai em uma ou duas vezes e enquanto me serviam um refresco de groselha, eu espiava fascinado a mesa coberta de canecas de cerveja, ouvindo o riso aberto dos velhos remadores, que se divertiam como crianças. Com o correr dos anos, o grupo foi se reduzindo, alguns doentes ou velhos demais para aquelas jornadas de cerveja, schnapps e rollmops. As cadeiras da “mesa tronco” foram se esvaziando, até que, em um dia chuvoso de inverno, o “Correio do Povo” publicou um pequeno anúncio, avisando que o Lilliput fechara as portas.
Meu pai leu o anúncio, mas não disse nada; nem era preciso. Todos na família sabíamos como ele sentia falta dos velhos companheiros de remo. Durante anos, eles cumpriam o mesmo ritual – o lançamento dos barcos, aos domingos de manhã, no cais dos Navegantes.
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Quase uma vida depois, estou em uma cidade distante, quando amigos vêm me buscar para jantar. E vão avisando que não vamos a um restaurante, mas a uma “Strassenfest”, a festa de rua que celebra a chegada da primavera. Eu nunca vira algo parecido – os bares ao redor da praça colocaram suas mesas e cadeiras na rua. E não fomos os primeiros – dezenas de pessoas já estavam se divertindo, abastecidos de cerveja pelos garções, que saem dos bares com braçadas de canecas. Nas fachadas das casas, bandeiras alemãs e austríacas e na praça, uma grande faixa anunciando a “Strassenfest mit Stammtischtreffen”.
A alegre festividade contagia a todos, incluindo pessoas nas janelas das casas e os que chegam das ruas próximas. Os ocupantes de uma grande mesa, nos convidam a sentar e a cantar com eles velhas canções tirolesas, que falam de caçadores e donzelas de tranças douradas.
Como em um sonho, sou transportado para a velha “mesa tronco” dos remadores amigos de meu pai. Juntos, erguemos as canecas de louça e cantamos alto, despreocupados como crianças. Com frequentes pausas para devorar pedaços de stinkenkäse e rodelas de wurst com mostarda picante.
As mesas estão dispostas como a do Lilliput, com salsichas, pickles e uma variedade de queijos ardidos (ou “fedidos” como diria meu pai). À minha frente, surge uma travessa de Limburger, o camembert alemão, Tilsiter e Romadur de casca vermelha e o suave Ziegenrolle de leite de cabra. Provo um pouco de cada, incapaz de decidir qual o melhor para acompanhar o pão preto crocante e a cremosa cerveja bávara.
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A “Strassenfest” fica cada vez mais animada, mas deixo a praça e saio em busca do hotel. Ao dobrar uma esquina, vejo a rua iluminada pela luz amarelada das lanternas de um pequeno bar. Chego perto – aqui também as pessoas bebem e cantam, mas não é uma canção alegre e soa como uma despedida triste.
Ao retomar o caminho, regresso a um sábado de minha infância. Eu e meu pai estamos passeando pelo centro de Porto Alegre. Descemos do bonde Prado na Otávio Rocha e ele mostra onde ficava o velho Lilliput. As portas estão fechadas e a lanterna amarela tem os vidros quebrados.
O rosto de meu pai fica sério e distante. Ele devia estar se recordando do canto e do riso dos amigos que se foram.

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