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A morte, o medo e a mosca

“O estado pré-cadáver faz lembrar um saco de batataquando cai no chão, que é como cai um corpoainda meio vivo, mas já meio morto.” …

“O estado pré-cadáver faz lembrar um saco de batata

quando cai no chão, que é como cai um corpo

ainda meio vivo, mas já meio morto.”

A morte no cinema tem muitas faces, como um diamante em eterna lapidação. Fomos criados assistindo mocinhos matar bandidos, os azuis matarem “os malditos Cheyenes”. Mas eram mortes cinematográficas, muitas vezes espetaculares. A gente não esquecia nunca que era cinema. Exceção honrosa para a morte do palhaço no filme “O maior espetáculo da terra”. Quem viu o filme vai lembrar do modo grotesco como o palhaço mexeu as pernas enquanto é forçado a ficar com a cabeça dentro de um tonel de água, até morrer afogado. Barra pesadíssima, para o público de oito anos de idade que podia ver o filme por se tratar de circo.

Para mim foi Sam Peckimpah (precursor ou inspirador de Tarantino, eu acho.) quem inaugurou a morte supracinema, supracenográfica, realista e nojenta. Em o clássico e atemporal “Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia”, Peckimpah dá um close num saco de algodão grosseiro. O tecido está úmido, sujo de terra e manchado de sangue velho. A forma do volume no saco sugere que a cabeça de Alfredo Garcia está ali, jogada em cima do balcão, num boteco sórdido, no calor sufocante do deserto mexicano, em que tudo tem uma imobilidade perturbadora. O silêncio morno só é rompido pelo zumbido de uma enorme mosca preta que dá umas voejadas rápidas e torna a pousar no tecido do saco repulsivo. Você quase sente o cheiro da morte. Foi sorte? A mosca foi atraída por alguma isca para pousar ali? Não sei, mas a presença dela foi decisiva para a construção da estética da morte em toda a sua intimidade. Nunca mais esqueci.

Tenho uma suposição, segundo a qual o filme Guerra ao Terror ganhou o Oscar por causa de uma cena como esta, uma megacena, uma cena de morte imortal. Nela a densidade do medo e da morte é como o silêncio morno na espelunca sórdida de Peckimpah. É a cena do deserto, quando os atiradores quase não respiram para manter o alvo no foco e o dedo no gatilho. Neste momento deixou de ser “filme de guerra” e passou a ser reportagem. O cinegrafista foi para dentro da trincheira. O coquetel nonsense se revela de pronto. Quando a bala acerta o alvo, o modo como o árabe morre é feio, digo, parece real, pois se aproxima do patético. A morte nunca é cinematográfica. O estado pré-cadáver faz lembrar um saco de batatas quando cai no chão, que é como cai um corpo ainda meio vivo, mas já meio morto. Os soldados são profissionais, e nessa condição agem como tal: metade encouraçado, metade alienado de medo, eles brincam, fazem piadas e sacaneiam-se mutuamente no meio da sangueira e na mais completa indiferença.

A cereja mórbida em cima deste bolo de brutalidades surge na luva suja de sangue do atirador imóvel, justo no dedo do gatilho. Uma mosca passeia alegremente sobre a mancha, como se estivesse em seu parquinho de diversões. A mosca é coadjuvante, sua presença diante da câmera é longa. Como fizeram? Não sei. Não parece ser recurso digital. É uma mosca mesmo. Pode ser Photoshop, vá lá, mas é fatal. É o detalhe horripilante e arrebatador. É a guerra, é a loucura, é a diferença entre fazer cinema e filmar o inferno. E o inferno só se deixa filmar se for cinema da melhor qualidade.  

Autor

Paulo Tiaraju

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