“Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão.”
Eça de Queirós citado por Roberto DaMatta
Sob o título de “O ministro Velloso ofendeu minha cidadania”, publiquei aqui a coluna abaixo em 31.10.2005.
Resolvi publicá-la de novo.
“E sem o valor chamado justiça
não existe a comunidade humana.
Ferreira Gullar
General norte-americano, cujo nome esqueci, participante da caça a Abin Laden e outros terroristas, indagado sobre seus sentimentos em relação a eles, foi pragmático: – Minha obrigação é entregá-los o mais rápido possível à Justiça Divina.
Essa resposta ocorreu-me face à liberdade concedida a Paulo Salim Maluf pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Velloso. Considerei a decisão um ultraje à sociedade brasileira, vítima – há décadas – desse indivíduo que, num prodígio genético, poderia ser um filho de Adhemar de Barros com outro ladrão, Moisés Lupion.
Pior, muito pior que a concessão da liberdade foi a justificativa: “Realmente imagino o sofrimento de um pai preso na mesma cela que o filho”.
Em 20 de outubro passado, o Supremo Tribunal Federal contrariou uma das regras internas que orientam suas decisões e, abrindo uma exceção, concedeu a liminar que tirou pai e filho da cadeia. É fato que os ministros não podem examinar processos que ainda não tiveram o mérito apreciado nas instâncias inferiores e com pedidos de liminar anteriormente negados. A sentença do STF, relatada por Carlos Velloso, foi também aprovada pelos ministros Nelson Jobim, Marco Aurélio de Mello, Sepúlveda Pertence e Ellen Gracie Northfleet. Recusaram-se a votar contra as leis do próprio STF os ministros Eros Grau, Joaquim Barbosa e Carlos Ayres Britto, sem analisarem o mérito da causa por considerar que o próprio julgamento seria um privilégio concedido aos réus.
Fica claro que não sou eu quem está julgando esses ministros que, ao concederem esse privilégio, agrediram minha cidadania. Eles já foram julgados pelos seus próprios pares, com credenciais infinitamente superiores à minha quando se trata de aplicar as leis.
Voltando à piedade do ministro Velloso, ao se lastimar por ver pai e filho na mesma cela, poderia ter usado seu prestígio para colocá-los em celas separadas.
Esqueceu-se o ministro que Maluf, no seu próprio lar, criou a sala de aula onde ensinou o filho como viver às custas de apropriação indébita, propinas em exercício de cargo público, formação de quadrilha, remessa ilegal de dinheiro para o exterior e coisas que eu não sei, mas certamente aconteceram, como sonegação fiscal, o mesmo crime pelo qual conseguiram enquadrar o Al Capone.
Paulo Salim Maluf, na sua carreira marginal, não satisfeito em deixar como herança o resultado dos muitos botins armazenados em cofres internacionais, fez questão que o filho honrasse a tradição corsária e deu-lhe o devido certificado de apto para o crime.
O ministro Carlos Mário Velloso completou, em 2004, 50 anos de carreira pública.
Em 31 de agosto deste ano recebeu uma homenagem e uma medalha-prêmio comemorativa do fato.
Na solenidade, entre muitos oradores, ouviu de seus pares brilhantes elogios: “… Cinquenta anos de brilhante vida pública e exemplo para todos os magistrados”, registrou a ministra Ellen Gracie. Nelson Jobim, atual presidente do STF, afirmou que o homenageado “faz muito bem ao Supremo e ao País”.
Face ao caráter piedoso do ministro Velloso e diante de tais pronunciamentos, eu seria obrigado a gritar:
– Não apoiado.
Na verdade, eu preferia mesmo que aos 35 anos de serviço público, tivessem dado de presente um belo pijama ao magistrado e o mandassem gozar as delícias do lar.
Quanto aos Maluf, na mesma cela, ou em celas separadas, prefiro mesmo vê-los em cana, até serem chamados pela e para a Justiça Divina.
Inté.”
Vitrine (Comentários sobre a coluna anterior)
Esse tema é legal, e te saíste muito bem. Gostei da ideia básica, autor&texto. Viste o do LFV há poucos dias, creio que o título era A Musa? Faltou-lhe a musa. Bjs. Vera (Verissimo), Porto Alegre.
Mario, esse seu diálogo com o próprio texto é rigorosa e absolutamente genial! Rodrigo A. Sá Menezes, São Paulo.
Meu caro Mario, que delícia! Abs. Rodrigo (Ferreira Santos), São Paulo.
Hehehehe esse é você. Beijokas, Claudia Almeida, Rio.

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial