“Viver Avatar é sair do nosso planeta
sem precisar morrer”
Sou da geração que praticamente foi cobaia de uma nova geração de psicanalistas. Hoje entendo que eles, ao abrirem o “mercado”, trabalhavam tensos e engessados pela sacralização das práticas terapêuticas, como se fossem sacerdotes de um novo templo. Havia muita confusão na área e uma quase obsessão em “fabricar” indivíduos emocionalmente “adultos”, e acachapá-los socialmente, condição indispensável de realização e felicidade de quem quer que seja, segundo os preceitos vigentes na época. Não vale a pena entrar nos meandros das razões, mas escapei deste curral e assim me afastei da boiada.
Pensava: me ajustar sem arestas ao que? A esse troço com o qual convivo o dia inteiro e acho tudo isso muito louco? Ser um psicochato? Morrer para nascer o que eu não sou? Eu fora. E deixei viver a criança que morava no meu coração.
Como assim ouvir estrelas? Pois é, não é possível curtir Avatar sem o olhar das ilusões sobreviventes, sem o olhar das utopias secretas, sem uma inocência primeva e um imaginário inconfessável, mas tão real quanto a Avenida Farrapos. Portanto, não assisti Avatar, eu fui levado por ele, o filme. Estou me lixando se é um blockbuster. Simplesmente eu me deixei sintonizar pelas sutilezas sugeridas por James Cameron (roteirista e diretor) que, melhor do que ninguém, nos deu acesso ao paraíso perdido e dali foi para a galeria dos gigantes do ramo, como Stanley Kubrick e Spielberg. Na busca em apresentar um novo prato, um novo sabor, Cameron inventou temperos que eram inexistentes, portanto estranhos, de resultado muito além da originalidade normalmente percebida.
Ao voar até a lua Pandora, encontrei centenas de clichês fosforescentes em levitação, passei por eles (sem levantar a guarda) e mergulhei nos sentimentos mais caros da humanidade. Era isso que o diretor queria, e conseguiu, o espertinho, genial. Claro que tem ação, tem vilões, mocinhos e bandidos magistrais. O mais engraçado é que quem empresta o corpo para os verdadeiros protagonistas, os avatares, são os atores e atrizes, Sigourney Weaver – fraquinha como sempre – e Sam Worthington, para citar os expoentes. Viver Avatar é sair do nosso planeta por quase três horas sem precisar morrer e, cá entre nós, ter vontade de ficar por lá mesmo, como já comentou a pertinente e aguçada Fu Lana.
Mas, já ouvi algumas pessoas dizerem: -… É uma esplêndida ficção científica. E outros: – Não passa de um show de inovação tecnológica. Seguramente essas pessoas fizeram a má psicanálise e levaram esta terapia à ponta de faca, como se diz na fronteira. Ou nunca fizerem a terapia, mas são vocacionadas para a coisa obscurantista. Não viram o filme. Viram a tecnologia. São adultos encaixotados, formatados, como fatias de pão de sanduíche.
Alguns destes cavalheiros, tenho certeza, riem pelas minhas costas, achando que eu sou doido. E eu rio pelas suas costas, tendo a certeza de que estão perdendo o melhor da festa. Para fazer o que o James Cameron fez, só louco. É mais ou menos como amar, com a mais absoluta entrega. Só louco. Cinema, arte, palavra, abstração, sublimação, encantamento, só um pouco louco para amar essas coisas todas, e abrir a cara, a alma, a mente e deixar-se levar para todas as dimensões da vida, com todas as suas consequências.

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