Colunas

A velhinha e o gatinho

A realidade não é o vemos. É o que existe, não importa onde esteja. (Autor desconhecido) Havia um gatinho branco aos pés de uma …

A realidade não é o vemos.

É o que existe, não importa

onde esteja.

(Autor desconhecido)

Havia um gatinho branco aos pés de uma senhora idosa que descascava laranja ao sol, e o silêncio da manhã só era interrompido quando uma leve brisa roçava a ramada da única árvore do jardim. Era inevitável ter simpatia de uma cena como esta.

Como os vizinhos, nunca soube muita coisa sobre a velhinha que descascava laranja, só dava bom dia e boa tarde por educação. Justo naquela manhã pensei que nunca havia visto a velhinha comer um gomo de laranja, nunca. Assim como achei normal ela dar a laranja para o gatinho comer. E o gatinho comia a laranja com muito gosto. Que engraçado – pensei –, gatinhos não comem laranja. Bem, este é um gatinho especial. E era mesmo. Como era um gatinho especial, não achei nada demais ele matar um passarinho no jardim e levá-lo para a velhinha. A boa senhora pegou o passarinho e começou comê-lo sem se dar o trabalho de tirar as penas. Que estranho – observei –, ela não come laranja, mas gosta de comer passarinho.

Às vezes, só quando eu estava com vontade de conversar, me encostava no portão para ouvir o que o carteiro tinha a dizer.Nesta manhã ele me disse que, antigamente, as pessoas se mostravam um pouco ansiosas quando ele entregava uma carta, pois o envelope encerrava boas ou más notícias. Mensagens de amores distantes, de saudades, ou de dor e despedidas. Disse que já viu gente segurar o envelope com as mãos trêmulas, rasgá-lo e ler a carta ali mesmo, na sua frente. Viu gente desabar no choro ou rir de alegria. E que hoje em dia só entregava conta de luz e outros compromissos, por isso era recebido com indiferença. Depois me olhou como quem pede cumplicidade e me disse que já viu o gatinho levar um camondongo ainda vivo para a velhinha e ela comer o ratinho no ato. Contou-me achando aquilo muito engraçado, e deu uma risada de dente de ouro. Que curioso – pensei assim que o carteiro se afastou –, gatinho que come laranja e velhinha que come ratinho.

Algum tempo depois, testemunhei outro fato que não gostaria de ter visto, pois não me pareceu adequado. Ao levar o lixo para ser recolhido na calçada, a velhinha e o seu gatinho foram hostilizados por um cachorro de rua. Célere, ela fugiu com uma velocidade despropositada para uma senhora da sua idade, e com igual animação subiu no tronco da única árvore do jardim. E o gatinho atrás, assustado como ela.

Com exceção destes pequenos incidentes, a vida ali no subúrbio era boa, embora de vez em quando o silêncio morno às vezes me incomodasse. Mas graças ao silêncio ouvi uma conversa de comadres no outro lado da calçada. Escrevo esta memória do mesmo modo como ouvi: “Diz que ela matou o marido, mas, nunca ficou provado”. “Meu bom Jesus, nossa Senhora Santíssima” – respondeu a outra. “Botava um bocadinho de veneno na comida dele, todo o santo dia. “Mas por que, Meu Santo Pai?” “Porque ele não gostava do gatinho”. “Mas que loucura Áurea”. “Que loucura Gládiz”. “E quando foi?” “Ah, já faz mais de 50 anos”.

Depois deste diálogo, achei que a história se encaixava bem ali no subúrbio. Até hoje não saberia dizer se foi verdade, se era mentira, como saber? Mas confesso que perdi a simpatia quando vi a vovó comer o gatinho num outro domingo de sol. Não pelo fato em si, repugnante, devo admitir. Mas porque o gatinho deixou-se comer sem reagir. E também achei desagradável o fato dela se lamber ao sol depois da refeição. Talvez porque não tivesse mais o seu gatinho, a partir deste dia ela começou a comer os gomos da laranja depois de descascá-la ao sol. E a caçar os seus próprios ratinhos.

Autor

Paulo Tiaraju

Compartilhar:

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Relacionados

CADASTRE-SE
Captcha obrigatório
Seu e-mail foi cadastrado com sucesso!

Aviso: se você optou por parar de receber nossos e-mails e deseja voltar à nossa lista, ou está com dificuldades para se cadastrar, entre em contato com a Redação pelo formulário Fale Conosco e informe seu nome e o e-mail que deseja incluir.