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A vida após a morte, segundo Clint Eastwood

Antes de Clint Eastwood, Woody Allen e o grupo inglês Monty Phyton se puxaram na telona para especular acerca das várias faces da morte. …

Antes de Clint Eastwood, Woody Allen e o grupo inglês Monty Phyton se puxaram na telona para especular acerca das várias faces da morte. Em verdade, quando o assunto é de morte, até os dias de hoje, ninguém foi factível a ponto de ser convincente. Resta, portanto, a boa e velha emotividade que nos faz ficar à beira das lágrimas, no escurinho do cinema.

O filme de Eastwood é um Dé Jà vu bem feito, mas digamos que ele armou bem o cenário e ficou satisfeito só com isso. O filme tecnicamente é um primor, tem cenas de tsunami que são impressionantes, quer pelas proporções bíblicas, quer pelo realismo brutal das cenas. Se quisesse, tinha material para se aprofundar um pouco mais, segundo o princípio que assuntos de vida após a morte, não deveriam ficar entre o céu e a terra. Mas são notáveis a direção sensível, a delicadeza e o bom gosto como fez as abordagens no inefável mundo espiritual, só isso garante que vale a pena assistir.

Até onde me parece, a questão da vida após a morte exerce um interesse intenso sobre pessoas que, ou vivem em extremos de vulnerabilidade, ou vivem assombradas com perdas irreparáveis. Há mães e viúvas que enlouquecem de dor. As primeiras vivem e se alimentam de recordações, e há viúvas que suicidam-se afetivamente, para seguir amando o morto ad eternum, por meio de seções espíritas.

Nós, os brasileiros, convivemos a céu aberto com outras vertentes desta mesma natureza, obscura para uns, feita de luz para outros. A umbanda, por exemplo, é algo tão íntimo dos brasileiros, que a gente chega a esquecer que os “pais de santos” estão com um pé aqui e o outro lá, do outro lado. Nesta hora todo mundo é “misifio”e acredita piamente que, se a mensagem for a nosso favor, para ter saúde, amores e, porque não, uma grana nova a caminho, a gente é filho de santo desde criancinha.

O curioso é que a relação dos brasileiros com suas entidades espirituais não tem cheiro de morte, em geral é alegre e festiva. Bem, de minha parte, o único cuidado que tomo é o de não ir a cemitérios. A sabedoria popular me ensinou que quem não é visto não é lembrado. Eu fora. Mas se uma dia eu morrer, seguirei ao pé da letra o preceito máximo de Epicuro, o grego genial. Ele disse que o encontro com a morte é impossível porque “enquanto eu sou, ela não é. E quando ela for, eu não serei mais”. Ou seja, se a magra entrar por uma porta, eu saio por outra.

Autor

Paulo Tiaraju

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