A vida não tem régua nem compasso, a vida cai por cima, se move, escorre, como a água da chuva. Por isso se infiltra em cada canto da casa, do jardim, na cama, na cozinha, no palco em que a bailarina torce o pé – impensável – em pleno espetáculo. Outro dia passei em frente a um prédio e dois homens contratados aparavam a grama do jardim, nada mais invisível, mas estavam lá. Uma garota saía com um carrinho de bebê e outra com um cachorrinho na coleira; uma idosa entrava com uma sacola do mercado, e parou para conversar com um executivo de terno e gravata que apressado lhe deu dois beijos.
Fixei o cenário e os atores e em seguida me dei conta que são estas as substâncias que fazem a vida girar. E elas estão muito longe das ficções xaroposas da Redi Grobo, como diz a negadinha lá no Rio. Talvez porque elas criam um fio condutor que silenciosamente entrelaça todas estas pessoas, a mim e a você, a ponto de, momentâneamente, esquecermos um pouco de nós, do eu viciado no eu.
Quem sabe, neste justo momento tocou o telefone num apartamento do sexto andar e, mão feminina, trêmula e frágil, levantou o aparelho. Deve ter entrado má notícia: o rosto da mulher teria empalidecido. Mas do terceiro andar escuta-se gritos de alegria: nasceu, nasceu, é um menino. Vá saber se é fruto de um romance intempestivo e arrebatador, ou se foi mais um namoro ordinário – com direito a festa de casamento nos Caixeiros. Serviram fricassê de frango, arroz, batata palha e muito vinho de garrafão – não importa, nasceu. “Vai ser colorado”, disse o pai. “Gremista desde pequenininho”, balbuciou a mãe, saindo da anestesia geral. Isso é irrelevante. O bebê tem 10 dedinhos nas mãos, 10 nos pés – comemora a família. Em Cubatão, onde passa um rio que dá peixe de duas cabeças, algumas crianças nascem descerebradas, como na cidade radioativa de Homer Simpson, o personagem cretino e mau caráter que simboliza boa parte da fauna masculina da baixa classe média.
Sem régua e sem compasso, a vida se recusa a ir para a agenda oficial. E sem os protocolos do Itamarati, deu dois filhos bastardos para o nosso santo guerreiro, o que venceu o dragão da inflação. Ele, o nosso reduto ético supra-ideológico, o nosso intelectual maior, a saber, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Súbito o acadêmico foi assaltado por um tesão irresistível e comeu a empregadinha, de pé, suponho. Comeu, pronto. Um ataque fulminante do nosso DNA afroluzitano. Como um tigre que desperta, ele deu o bote, voraz e objetivo, para dar continuidade à nossa saudável miscigenação. Ali onde ele comeu, qualquer um comeria (isso dá samba), dar a volta por cima que ele deu, depois da gravidez, quero ver quem dava.
Longe dos holofotes, a vida vai escorrendo como a água da chuva no meio fio. Tem nêgo com tanta sorte que acerta na Megasena. E outro tão distraído que, numa emergência sanitária, erra o caminho, e, no escurinho dos corredores, erra de porta, e adentra no palco de uma convenção com plateia lotada, praticamente com a manjuba de fora, precipitado pela necessidade, coitado. A vida não tem régua nem compasso. É assim. Todo dia a gente abre o jornal para ser esbofeteado, para ficar magoado no café da manhã. A moça foi estuprada e espancada até a morte, todo mundo sabe quem é a besta que fez aquilo, mas por força de recursos jurídicos ela continua solta. E na página seguinte sorrir por dentro: jovem que vegetava há mais de três meses sai do coma sem mais nem porquê. A vida não estudou medicina, e não dá muita explicação. Além disso, não tem régua nem compasso. E sabe o que mais? Pra você que me esqueceu, aquele abraço.

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