Depois de quase um mês percorrendo o Uruguai, Argentina e Chile, chegara a hora de voltar para casa.
O caminho era longo: saindo de Santiago, devíamos cruzar a Cordilheira dos Andes, fazer uma parada em Mendoza e depois tocar para Colón, na Argentina, atravessar a ponte, chegar a Paysandu e daí para Livramento e Porto Alegre. Obviamente isso não seria feito num dia só.
Estávamos programados para dormir em Mendoza, Paysandú e Rivera/Livramento.
O primeiro trecho entre Santiago e Mendoza é relativamente curto, cerca de 360 quilômetros, mas o problema seria a travessia do Paso de Los Libres, na fronteira dos dois países, a mais de 6 mil metros de altura, junto ao Aconcágua.
As alfândegas dos dois lados são das mais chatas do mundo. Isso sempre costumava prolongar em mais de horas o percurso.
Tudo vinha bem na viagem quando atropelamos um cachorro, que desavisado tentava atravessar a rodovia. Um mau agouro, certamente, mas que só saberíamos depois.
O caminho se inicia com a descida de Santiago, que está a quase 600 metros de altura, se roda algum tempo na planície e depois começa a subir em direção à fronteira por uma rodovia cheia de curvas, chamada Los Caracoles.
Foi nesse início de subida que o Meriva em que viajávamos deu sinal de que algo não ia bem com ele.
Retornamos alguns quilômetros para uma pequena oficina na beira da estrada e o diagnóstico do mecânico foi definitivo: o radiador tinha sido furado, provavelmente pelo choque com o cachorro e precisava ser trocado.
A solução era ficar o resto do dia e a noite numa pequena cidade da qual nunca tínhamos ouvido falar, Los Andes, uma cidade com cerca de 50 mil habitantes, enquanto o mecânico iria a Santiago comprar um radiador novo.
Ficamos num pequeno, mas razoável, hotel em Los Andes, jantamos num bom restaurante com vinho chileno e nos preparamos para, no dia seguinte, retornarmos à viagem.
Só que o dia seguinte nos reservava outra má notícia: o mecânico não encontrara em Santiago um radiador para o nosso carro porque a GM não operava no Chile.
Solução: pegar um ônibus de Los Andes para Mendoza, comprar um radiador lá e voltar para Los Andes.
Foi o que fiz naquele dia.
Cheguei à noite em Mendoza, dormi numa espelunca ao lado da rodoviária e no dia seguinte comprei o radiador numa revenda GM e tomei outro ônibus de volta a Los Andes.
Tudo parecia bem encaminhado, mas faltava ainda atravessar a fronteira.
Do lado argentino, tudo bem.
O drama começaria no lado chileno.
O guarda não queria deixar passar o radiador sem uma guia de importação. Não adiantou explicar que ele fazia parte de um carro, que tinha passado para o lado chileno sem problema e que agora precisava do radiador novo.
O guarda estava decidido a manter sua decisão e o motorista do ônibus começou a pressionar, dizendo que tinha horário para cumprir e ameaçou me deixar sozinho na fronteira.
Quando o bate-boca começava a ficar grande, apareceu o que me pareceu ser o chefe do local.
O guarda, querendo se mostrar zeloso diante dele, falou da sua decisão. Felizmente o tal chefe parece que não tinha muita simpatia pelo guarda e lhe disse algo do tipo “você não tem mais nada para fazer do que brigar por essa ninharia?” e mandou que ele liberasse a minha carga.
Fui embora com o radiador e sentindo nas costas o olhar furioso do guarda.
No dia seguinte, o mecânico colocou o radiador novo e lá fomos nós de volta à estrada e eu torcendo para não encontrar outra vez aquele guarda chato quando chegasse à fronteira.
Não encontramos o guarda chato e tudo voltou à normalidade depois disso e eu pude incluir Los Andes entre as cidades que conheci fora do Brasil.


