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Aconteceu em Uruguaiana

Por Marino Boeira

Uruguaiana sempre esteve na minha mira como visitante, mas só fui conhecê-la há uns sete ou oito anos, quando empreendi uma viagem de carro ao Deserto do Atacama, no Chile.

O percurso se faria entrando na Argentina por Paso de los Libres, seguindo pelo Chaco até Salta e depois chegando ao Atacama pelo Paso de Jama, mas exigi dos meus companheiros de viagem pelo menos um dia e uma noite em Uruguaiana.

A cidade era para mim o lugar onde vivera um personagem folclórico e que segundo todos que falavam dele, mereceria  um filme: o Ivo, dono do bordel mais famoso da cidade nas décadas 40 e 50.

O primeiro que me falou no Ivo foi meu colega do curso de História da UFRGS e até hoje meu grande amigo, o Eloy Rodrigues da Silva.

O Ivo tinha um cabaré (na realidade um bordel) freqüentado pelos fazendeiros da cidade e onde prestavam serviço lindas mulheres, muitas trazidas da Argentina e do Paraguai.

Ivo era um homossexual gordo e careca, que se vestia sempre de mulher, mas que não costumava levar desaforos pra casa e que dispensava seguranças no seu bordel, porque ele mesmo se encarregava de botar pra rua, com a força dos seus braços os que não sabiam se comportar num lugar onde o respeito era fundamental.

Depois foi o João Moreira, que conheci tentando ser jornalista na TV Piratini e que depois virou dono de cartório na Zona Sul.

Ele me contou uma história pitoresca sobre o Ivo. Quando era menino em Uruguaiana ficava ouvindo falar do Ivo e não entendia bem do que se tratava. Um dia, em que estava com sua mãe numa loja, ela cochichou para uma amiga: – olha o Ivo.

Ele então apontou para a figura que entrara na loja, e perguntou: “Isso, então é o Ivo?”.

O João sempre dizia que faltava um Fellini para fazer um filme sobre o Ivo e me cobrava que escrevesse algo sobre ele.

Agora, vejo que não precisa mais: o Ivo é um dos personagens do livro A Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez. Nas páginas 93 e 94, o autor, Tabajara Ruas descreve assim o personagem: “Ivo Rodrigues viera fugido de Passo Fundo, onde – dizem – tinha matado um homem. Mais de metro e noventa de altura, barriga imensa, cento e cinqüenta quilos de peso, Ivo fazia a barba de três em três dias. 

Tinha cabelos apena na base do crânio, o que lhe dava uma careca enorme, redonda e brilhante. Usava os lábios permanentemente pintados de um violeta agressivo. Também estava sempre com as unhas pintadas, paradoxais nas mãos grandes e peludas. Usava um vestido comprido, o mesmo dia após dia, com flores desbotadas. 

Calçava chinelinhas de couro. Era famoso em toda fronteira oeste e amado pelos moradores dos arrabaldes; uma vez por mês distribuía comida para os pobres; no inverno, cobertores e roupas. Desfilava pela cidade numa carruagem de sua propriedade, puxada por dois cavalos, com cocheiro, acompanhado por duas ou três “meninas” como chamava suas prostitutas. A população o tolerava com sombria reserva”.

Essa Uruguaiana do Eloy, do João e do Tabajara, infelizmente não pude conhecer.

Mesmo assim a Uruguaiana atual merece ser vista, quanto mais não seja pelo fato de ser uma cidade de fronteira, a beira de um rio.

Autor

Marino Boeira

Formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), foi jornalista nos veículos Última Hora, Revista Manchete, Jornal do Comércio e TV Piratini. Como publicitário, atuou nas agências Standard, Marca, Módulo, MPM e Símbolo. Acumula ainda experiência como professor universitário na área de Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e na Universidade do Vale do Rio do Sinos (Unisinos). É autor dos livros ‘Raul’, ‘Crime na Madrugada’, ‘De Quatro’, ‘Tudo que Você NÃO Deve Fazer para Ganhar Dinheiro na Propaganda’, ‘Tudo Começou em 1964’, ‘Brizola e Eu’ e ‘Aconteceu em…’, que traz crônicas de viagens, publicadas originalmente em Coletiva.net. E-mail para contato: [email protected]
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