Esta é uma crônica de enredo familiar. E o autor está enredado.
(Fraga)
Sob o título Os Menda e eu, meu teleamigo Fraga nos brindou aqui, em 30 de março, com uma inspirada crônica sobre o ramo da família Menda, que aportou na capital gaúcha em 1927 e lá criou o seu clã. Num Pan-americano afetivo, Porto Alegre foi o palco do encontro dos Menda das três Américas em 31 de março deste ano. Bela história, bela crônica e, tenho certeza, belo encontro.
Também em Coletiva, a teleamiga, jornalista Márcia Martins, já nos contou sobre encontros da Saudosa Maloca, sua turma da Famecos – Faculdade dos Meios de Comunicação Social da PUCRS, para os não iniciados. Consta que Saudosa Maloca, letra e música de Adoniran Barbosa, gravada em 1955, refere-se à demolição de uma “cabeça de porco”, enorme edifício popular de três ou quatro andares e próximo ao antigo centro paulistano, apelidado de Vaticano, o qual conheci.
Em 1957 fui a Porto Alegre levado por Abujamra, dirigi três espetáculos, voltei para o Rio, participei como ator e diretor da inauguração do Teatro de Arena, hoje Teatro de Lona, em Campo Grande, na Zona Oeste. Em 1958, voltei para Porto Alegre, dirigi espetáculos e naquele mesmo ano acabamos, Milton Mattos, Paulo César Peréio, Paulo José e eu, fundando o Teatro de Equipe, hoje capítulo importante da história do teatro gaúcho. O Equipe está no Dicionário do Teatro Brasileiro, através da minha peça O Despacho, levada à cena, já no teatro próprio, em 1961.
O Theatro São Pedro, em cujo palco aconteceu o primeiro espetáculo do Equipe, recebeu em seu foyer, 45 anos depois, os ex-integrantes do grupo e dezenas dos seus amigos das diversas artes e profissões, para o lançamento do livro Trem de Volta – Teatro de Equipe, durante o X Porto Alegre em Cena. Escrevi para Coletiva crônicas sobre esse evento e uma delas foi Encontro tamanho família.
Em São Paulo, quem passa pela Praça da República vê um imenso edifício de três andares cercado de jardins e ocupando um quarteirão inteiro. Essa obra de Ramos de Azevedo, de 1895, abriga há anos a Secretaria de Educação do Estado. Nas oito décadas anteriores, foi a Escola Normal Modelo, uma matriz paulista e nacional da formação de professores primários. Já com o acréscimo de um terceiro andar, quando em 1934 foi fundada a USP e sua Faculdade de Filosofia, foi o endereço inicial daquela faculdade que, de 1938 a 1954, deu-se ao desfrute intelectual de ter o francês Roger Bastide como catedrático de Sociologia.
A escola, que acabou recebendo o nome de seu fundador – Caetano de Campos – ao implantar em 1950 os cursos noturnos, somava 8.000 alunos, divididos no Pré-escolar, no Primário, no Ginásio, no Normal, no Científico e no Clássico. Entrei lá, por sorteio, em 1939, em 44 continuei por exame de admissão ao Ginásio e até o Clássico vivi um curso intensivo de democracia. Em 1944 e 45 iniciaram-se amizades eternas e, em 1976, essa nossa turma, num grande movimento, impediu a demolição do prédio. O amigo, advogado Modesto Souza Barros Carvalhosa, o 33 da minha turma de Ginásio (leitor declarado de Coletiva), conseguiu, na Justiça, tombar o edifício.
Dessas turmas dos anos de 1940 saíram os amigos que, há décadas, festejam a vida e a fraternidade através de um almoço ou jantar em São Paulo. Sempre que posso, respondo à chamada. Na minha última presença, no Restaurante da Brahma, na Avenida São João, entrei e perguntei à recepcionista: onde está o pessoal pé-na-cova? Ela apontou o local sem pestanejar.
Estou decepcionado comigo e acabrunhado com os leitores. Como a própria epígrafe furtada ao Fraga denuncia, esta deveria ser uma crônica familiar. Enquanto o Fraga se confessou enredado “antes” de escrever, eu me enredei tentando escrever.
Nessa tentativa de escrever sobre sobre outras reuniões afetivas, exagerei na posologia e o espaço ficou grande, ou seja, o “nariz de cera” ficou no padrão Bergerac.
Síntese: Célia, Rachel, eu e Eduardo, quatro irmãos nascidos nessa ordem, os Coelho Pinto de Almeida, reuniram-se, no sítio do Eduardo, próximo à capital paulista, com 36 respectivos anexos, descendentes e periféricos. Foi a chamada “festa de arromba”. Os “cariocas”, desfalcados da Rachel, filha primeira retida pelo trabalho no JB, compareceram com minha mulher, uma filha, um genro, uma neta e eu.
Acontece que esqueci dos exageros de Itu, localização do sítio, e exagerei também. Aos leitores que me perdoarem, na próxima semana, depois do “descarrego”, tentarei um telegrama sobre o encontro.
Inté.


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