Em setembro de 1958, fomos, um grupo de artistas gaúchos – Marlene Ruperti, Nilda Maria, Glênio Peres, Luiz Carlos Maciel, Milton Mattos, Paulo César Peréio, Paulo José e este paulista – , a Montevidéu, a convite da Embaixada do Brasil para a apresentação de Poetas & Poemas, um espetáculo de poesias encenadas criado por mim, parte das comemorações pela data da nossa independência.
Vinicius de Moraes, que era nosso adido cultural no Uruguai, tinha um poema dito pelo Paulo José: Mensagem a Rubem Braga: “A meu amigo Rubem Braga
Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever…”
Depois do espetáculo, fomos para a casa do poetinha, ele assumiu o violão e, pela manhã, fomos para o hotel dormir.
Depois daqueles anos nunca mais estive com Vinicius, que, inclusive, já havia sido despachado do Itamaraty pelo caráter bronco do ditador Artur da Costa e Silva e havia emplacado sua carreira de compositor e cantor.
Reencontramo-nos década depois, no Antonio’s, então já um dos domicílios de nós dois e de boa gente da música, como Ciro Monteiro, Erlon Chaves, Lúcio Rangel, Martinho da Vila, Nana Caymmi, Nelson Motta, Sérgio Cabral (pai), Simonal, Tom Jobim e Toquinho e boa parte da inteligência carioca.
Sábado passado, nossa poesia e nossa música comemoraram o centenário de nascimento do artista Vinicius de Moraes.
Na outra semana, escrevi aqui sob a epígrafe do provérbio basco Viver bem é a melhor vingança, quando confessei que não tenho a menor crença de que – algum dia – este país possa dar certo. Cada um de nós tem suas maneiras de driblar a cidadania e ser feliz.
Numa música, em parceria com Toquinho, Vinicius entregou, num refrão, sua maneira de ser feliz.
Cotidiano Nº2
Há dias que eu não sei o que me passa
Eu abro o meu Neruda e apago o sol
Misturo poesia com cachaça
E acabo discutindo futebol
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Acordo de manhã, pão sem manteiga
E muito, muito sangue no jornal
Aí a criançada toda chega
E eu chego a achar Herodes natural
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Depois faço a loteca com a patroa
Quem sabe nosso dia vai chegar
E rio porque rico ri à toa
Também não custa nada imaginar
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Aos sábados em casa tomo um porre
E sonho soluções fenomenais
Mas quando o sono vem e a noite morre
O dia conta histórias sempre iguais
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Às vezes quero crer mas não consigo
É tudo uma total insensatez
Aí pergunto a Deus: escute, amigo
Se foi pra desfazer, por que é que fez?
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Pois é, Vinicius, dono de uma vida riquíssima, ensinou que nós, brasileiros, temos que ter, cada um, o nosso violão.
Inté.
Vitrine (Correio virtual)
Ô Mario, viva !
Novamente você, com a clareza que encanta. Quando li a notícia do discurso do Luiz Ruffato na inauguração da Feira do Livro de Frankfurt, onde o Brasil foi homenageado (o homenageado quase sempre é quem paga a conta), fiquei reticente. A gente lê a mesma notícia em várias publicações, ao mesmo tempo em que vê e ouve a mesmíssima através de diversas mídias…
Também fiquei satisfeito com o brado do tal Ruffato. Seu gesto confirmou a plena liberdade de expressão ora vigente no país… e isto não tem preço.
Nem preço, sequer prazo. Ruffato até poderia significar o fato que ruge, que range, que tal?
Tenham ou não fundamento, suas palavras deram prova desta liberdade. O que me fez lembrar um discurso de formatura no Colégio Pedro II. Fui incumbido de o fazer e acabei dando um jeito de não passar pela leitura prévia do então querido mestre George Sumner, senhor da tarefa. Afinal, tinha que haver coerência com o lema do jornal dos alunos (A Flama):
“Atreve-te a viver tal como pensas.”
Assim o mundo viu e ouviu mais uma lição de liberdade oferecida pelo Brasil. Li também notícias de que Ziraldo não gostou, embora o talentoso e amado super-artista mineiro seja um dos mais condecorados, com as insígnias “Libertas Quae Sera Tamen”.
Salve, salve, Seu Mario!
Beijão do Léo (Christiano), Rio
… A esperança se esvai…
Moisés Andrade, Olinda/ Recife.
Logo ao pé da coluna:
País surreal – Excelente como sempre, Mario! Me honra ter sido citado no artigo e, mais ainda, por corroborarmos a mesma opinião sobre esse país surreal. Sigo seu conselho: aproveito a vida. Fraternal abraço. Carlos Eduardo F. Cunha, Santo Amaro da Imperatriz/SC

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