Colunas

Ainda ouvindo ruas

Por José Antônio Moraes de Oliveira

 

“A minha cidade é feita de luz

de sóis e de luas, de esquinas e ruas

e de lençóis à janela”.

De um poeta lisboeta.

***

Quando escrevem sobre a cidade ou bairro onde nasceram, até mesmo os grandes prosadores se enternecem, virando poetas. Alguns acreditam que existe um cordão umbilical invisível, que nos mantém conectados à nossa cidade-berço. Um famoso escritor irlandês, que também fazia versos, estampou em uma simples e inspirada frase este sentimento misterioso:

“…Nossa jornada vai terminar quando chegarmos onde tudo começou…”

 ***

Um outro poeta, o uruguaio Eduardo Galeano, também se dizia apaixonado por sua cidade. Ele assim a descrevia: 

“Montevidéu é uma cidade onde as pessoas amam sem se falar e abraçam sem se tocar”.

Seus amigos lembram que nos últimos anos, Eduardo Galeano, já com 40 livros publicados, saía de sua casa em Pocitos para longas caminhadas pelas ramblas ao longo do Rio da Prata. Dizia que andava em busca de inspiração para um novo livro:

“Vou caminhando pela costa da cidade onde nasci. Ando nela e ela anda em mim. E, enquanto vou, as palavras caminham dentro de mim e vão formando histórias”.

***

Outro grande apaixonado por Montevidéu é Mario Benedetti. Para ele, as ruas da Ciudad Vieja possuem vida e alma próprias. E que a capital uruguaia é uma cidade respirável e amigável – um luxo cada vez mais escasso no mundo de hoje. Consta que escreveu seu romance “A Trégua” em uma mesa no extinto Café Sorocabana, da Calle 25 de Mayo. Não longe dali,  na Calle Ituzaingó, o Café Brasilero fica outro ponto favorito dos intelectuais e onde Eduardo Galeano costumava rabiscar em guardanapos.

Assim como eles, muitos autores descreveram suas cidades, abrindo portas e janelas para estórias e segredos. Enquanto Fernando Pessoa dedicava inspirados poemas à sua Lisboa, o irlandês James Joyce convidava às ruas, praças e pubs da mítica Dublin. E em 1890, um jovem estudante chamado Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust começava a escrever sobre Paris. E até o final da vida, já recluso e adoentado, ainda descrevia e escrevia sobre os quartiers e ruas da Cidade Luz.

***

Quem deixou o coração em Montevidéu, Lisboa, Dublin ou Paris não precisa de passaporte para resgatá-lo. Para reencontrar sua magia, basta seguir as pegadas dos escritores e poetas que as amaram profundamente. 

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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