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Almoço no claustro

Ao meio-dia em ponto, tocam os sinos da igreja de Nuestra Señora de La Merced, na Calle Reconquista, ressoando no pátio de pedras do …

Ao meio-dia em ponto, tocam os sinos da igreja de Nuestra Señora de La Merced, na Calle Reconquista, ressoando no pátio de pedras do Convento Grande de San Ramón Nonato. Por que dobram estes sinos? Estão chamando para a missa das doze, mas também avisam que está na hora do almoço no restaurante do convento.

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Almoçar em antigos claustros e monastérios, ouvindo madrigais renascentistas e saboreando cardápios assinados por chefs badalados. Esta é a novidade que chega de Buenos Aires, trazida por um amigo, impenitente caçador de novidades gastronômicas. Segundo ele, de segunda a sexta, quando bate o meio-dia, uma revoada de executivos de terno Armani sai dos bancos e da bolsa de valores, em direção a velhas igrejas escondidas nas estreitas ruas do centro. Vão em busca da tranquilidade de centenários claustros e conventos, onde se instalaram charmosos bistrôs e restaurantes.

Os portenhos, que consideram a hora do almoço como a parte mais importante do dia, ganharam mais um pretexto para desfrutar a liturgia do bem comer.

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A missa na pequena igreja de Santa Catalina de Siena está quase no fim. A fachada branca contrasta com o amarelo do arenito nos prédios comerciais da Calle San Martin.

Do lado esquerdo da igreja, uma galeria leva ao antigo claustro, que foi construído em 1727 para abrigar as primeiras freiras dominicanas que chegaram a Buenos Aires. Cruzando o jardim, cercado de altos muros, chegamos a um pequeno restaurante, inesperado oásis em meio à frenética agitação do centro financeiro e bancário.

O “El Claustro” foi bancado pela Harry Cipriani, a empresa que administra endereços famosos em New York e Veneza. O chef é Rolo Benítez, que fez nome em concorridos restaurantes em Palermo Viejo.

O gerente Santiago Gravière abre as janelas que dão para o jardim do convento e aromas de especiarias chegam até o salão. Sob as árvores centenárias, um sous chef colhe menta, lavanda, orégano e alecrim de uma pequena horta. Por certo, temperos que estarão nos pratos do menu do dia.

Como o restaurante é pequeno e está na moda, as reservas parecem ser indispensáveis. As melhores mesas ficam a um canto, junto a uma estante com livros encadernados em couro. Uma luminária de opalina e duas poltronas de couro sugerem uma pausa para leitura. Nas estantes, volumes da melhor literatura espanhola – Miguel de Cervantes, Lope de Vega, Garcia Lorca, Antonio Machado, além dos contemporâneos argentinos Julio Cortázar, José Hernandez e Ernesto Sabato.

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Naquele dia, o salão do “El Claustro” estava lotado e o serviço bem demorado. Ouvia-se o tilintar de talheres e cristais e um trio de cordas tocava ao fundo, mas ninguém parecia prestar muita atenção à música.

Quando o garção avisa que meu prato está pronto, eu já estava na metade dos “Cuentos breves y extraordinarios” de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares. O livro vai comigo para a mesa, mas a leitura fica de lado quando chega o salmão branco do Chile com aspargos, regado por um chardonnay de Mendoza.

O salmão e o mendocino foram degustados gulosamente, com o tempero ocasional de nostálgicas zarzuelas e sevillanas. Nada que lembrasse um almoço conventual do século XVIII.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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