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Amanhã é maio

Abril é o mais cruel dos meses, germina Lilases da terra morta, mistura Memórias e desejo, aviva Agônicas raízes com a chuva da primavera …

Abril é o mais cruel dos meses, germina

Lilases da terra morta, mistura

Memórias e desejo, aviva

Agônicas raízes com a chuva da primavera

 Versos iniciais de A Terra, de T. E. Eliot, na tradução de Ivan Junqueira

(A primavera, no hemisfério norte, é em março, abril e maio)

 

Dia 18 deste abril que se despede hoje, minha colega aqui de Coletiva, a jornalista, cronista e poeta Márcia Martins escreveu uma bela crônica exorcizando este mês, inda que estivesse a pouco mais de sua metade.

Surpreendido pela amargura despejada por esses dias de outono, minha memória lembrou-se da crônica anterior dela, uma viagem de Butiá a Porto Alegre, uma interminável via crucis em meio às comemorações da Páscoa. Abril se fazia cruel para a minha amiga.

A amargura da última crônica, um desabafo que nos obriga à solidariedade, fez-me lembrar da antiga companheira que já se foi, a também poeta, cronista e gaúcha Lara de Lemos.

Numa viagem internacional que eu fazia só, ao chegar ao hotel em Roma, entregaram-me uma carta dela. Sentei-me no próprio hall do hotel, li e reli um documento de amargura que remetia ao fel.

Eu, ainda embalado nos gratos dias no Marrocos, na mítica Casablanca, em Lisboa e arredores, na Madri já recuperada de Franco, na indescritível e mágica Barcelona e seu fabuloso Gaudí, às vésperas de passear pelas ruínas romanas, pela sofisticada Via Veneto e de assistir, in loco, ao lançamento mundial de Roma, de Fellini, inspirei-me. Fui ao balcão da recepção, comprei um postal da cidade em flores e mandei: ”Quando acordar alegre, cante uma canção e escreva uma carta. Quando acordar triste, cante uma canção”.

Essa resposta parece primar pela falta de solidariedade, mas acho que não é o caso, pois solidariedade em situações não trágicas, quando não são auxílios concretos, só serve para prolongar as lembranças amargas. E aconselhar quem não pediu conselho, mesmo sendo um gesto reservado aos íntimos, pode, até, às vezes, ser uma indelicadeza, uma ação indevida.

A intenção era outra e metafórica. O meu postal revelava haver compreendido a tristeza dela, Lara, mas não carregava o insólito bafo da hipocrisia. Estava óbvio que eu estava em outro astral.

Naqueles dias, eu era um curioso viajante em ação, caminhando novos caminhos na tentativa de entender melhor a nossa cultura ocidental.

Parece até que Vinicius e Toquinho leram aquele postal, pois a própria Márcia, em sua crônica, refere-se aos versos da dupla, As cores de abril, uma receita musical para dar a volta por cima:

As cores de abril

Os ares de anil

O mundo se abriu em flor

E pássaros mil

Nas flores de abril

Voando e fazendo amor

O canto gentil

De quem bem te viu

Num pranto desolador

Não chora, me ouviu

Que as cores de abril

Não querem saber de dor

Olha quanta beleza

Tudo é pura visão

E a natureza transforma a vida em canção

Sou eu, o poeta, quem diz

Vai e canta, meu irmão

Ser feliz é viver morto de paixão

 Aviso aos navegantes: cantem, amanhã é maio.

Inté.

Vitrine (Comentários dos leitores)

Adorei a matéria. Esse foi um dos melhores filmes a que assisti nos últimos tempos, e essa Gertrude Stein ficou na minha cabeça: pensei, que intelectual poderosa era aquela que aconselhava todos aqueles talentos?! Seria no Brasil um cruzamento de Oswald/ Tarsila e Mario de Andrade? Patrícia Golombek, artista e escritora, São Paulo.

Fantástico, Mário! Obrigada por mais esta. Saudades do amigo. Bjx com carinho. Circe (Aguiar), professora, Rio.

Mário Querido: Excelente crônica inspirada na Belle Époque Parisiense. Adorei sua referência à última “criação” do genial Woody Allen – Midnight in Paris – para mim, o melhor de todos os filmes que concorreram ao último Oscar. Um lembrete: creio que a Stein passou a residir naquele endereço por você citado a partir de 1903 (e não 2003), confere? Aquele abraço de seu grande admirador. Francisco Cunha, agrônomo, professor, Florianópolis.

(Em e-mail à parte da coluna, mas enriquecendo-a, após registro meu de que a Belle Époque acabou em 1914, Francisco prossegue).

Sua COLUNA é sempre recebida com muita expectativa, a cada semana. Você está absolutamente certo quanto ao “período oficial” correspondente à La Belle Époque! Minha alusão a esse momento da (recente) história da humanidade deve-se à data em que a revolucionária e patronesse de artistas famosos Gertrud Stein (1874-1946) passou a morar no  27, rue de Fleurus, 6th arrondissement, em Paris. A mesma época para a qual, de forma mágica, foi “remetido” o casal Gil e Adriana – protagonizado por Owen Wilson e Marion Cotillard – no maravilhoso Meia-Noite em Paris, de Woody Allen (1935-), quando encontraram personagens como os imortais artistas plásticos Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901), Eugène Henri  Paul Gauguin (1848-1903), Edgar Hilaire Germain Degas (1834-1917)…

Gostaria de contribuir com um novo Approach da expressão “uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa“, de Stein.

Em seu instigante e seminal livro A Conspiração Aquariana, Marilyn Ferguson (1938-2008) nos alerta para as limitações dos idiomas derivados das línguas indo-europeias, que “nos aprisionam em um fragmentado modelo de vida, ignoram o relacionamento e modelam nosso pensamento, forçando-nos a pensar em tudo em termos de causa e efeito“. Vale-se do filósofo polonês Alfred Korzybski (1879-1950) –  fundador da disciplina “Semântica Geral” – para quem a apreensão da realidade não será alcançada “até que percebamos a limitação das palavras“, as quais, de certa forma, “encerram nosso pensamento” (o filósofo austríaco Ludwig Wittengstein – 1889-1951 –  também nos alerta sobre as limitações da linguagem escrita). Ferguson nos oferece um exemplo de como “a mudança e a complexidade sempre ultrapassam nossos poderes de descrição”:

O mapa não é o território.

 

Uma rosa não é uma rosa é uma rosa;

a maçã de 1º de agosto não é a maçã de 10 de setembro 

ou o fruto murcho de 2 de outubro”

Jovem Mario, localize a Place de la Contrescarpe em Paris. A Paris é uma festa de Hemingway era ali…Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife

Ei-la. Mario

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Autor

Mario de Almeida

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