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Amizade é dádiva

A revista dominical de O Globo publicou, em 25 de junho, os resultados  de uma pesquisa entre o seu pessoal para saber quem são …

A revista dominical de O Globo publicou, em 25 de junho, os resultados  de uma pesquisa entre o seu pessoal para saber quem são os 100 brasileiros vivos considerados geniais.

Descobri que tenho, entre os escolhidos, 12 amigas e amigos, além de outros tantos “gênios” cujas amizades são privilégios. Se a pesquisa incluísse os falecidos que me deram a dádiva do conhecimento e do convívio, a alegria seria tripla.

Erico Veríssimo nasceu em 1905 e o filho, Luis Fernando, em 1936. Primeiro conheci Erico que, em 1957, junto com Mafalda, ofereceu-me um almoço, em Porto Alegre, na mesma casa do bairro de Petrópolis onde, até hoje, reside o clã.

Conheci, pouco depois, Luis Fernando, cuja irmã, Clarissa, que mora em Washington, jamais vi.

A última vez que estive com Erico foi em sua casa, em 1975, quando acompanhei minha ex-mulher, poeta, para uma noite de autógrafos de um livro dela, em Porto Alegre. Nessa ocasião, fiquei de mandar-lhe, do Rio, a receita do “Arroz de Puta Pobre”, que está no livro da cozinha de Goiás, cujo autor, Bernardo Elis, havia enviado-me de lá.  Não houve tempo, ele se foi em seguida.

No Brasil, exceto no Rio Grande do Sul, Luis Fernando assina suas crônicas como Verissimo. No Rio Grande, ele assina com o nome todo, para não haver confusão com o pai.

Até 2003, toda vez que ia a Porto Alegre, ia também à casa dos Verissimo, fim de tarde, levar meu beijo à matriarca Mafalda. Era um happy hour de segunda a sexta. Ela se foi, mas lá conheci Eva Sopher, responsável pela restauração do Theatro São Pedro e hoje empenhada na construção do Multipalco, colossal empreendimento, ao lado do São Pedro, voltado para todas as atividades cênicas. Por coincidência, eu estava lá e compareci à solenidade do lançamento da pedra fundamental e da homenagem a José Lewgoy, cujas cinzas ficaram junto ao espaço onde ele começou sua carreira de ator.

Quanto ao Luis Fernando, apesar de conhecê-lo pouco tempo depois dele ganhar a maioridade e já tocar saxofone, nunca havia ouvido o amigo. Há uns quatro anos, convidei minha mulher para um “pacote”: fomos assistir a um show humorístico-musical num restaurante do centro do Rio, “Cais do Oriente”, com os irmãos Chico e Paulo Caruso e solo de Verissimo no sax. Chico eu conhecia, há muito, do “Antonio”s”, e Paulo apenas de apresentação social. Chico, um dos “geniais”, continua na primeira página do Globo e Paulo está no Jornal do Brasil. Divertimo-nos com o show e verificamos que o “genial” Luis Fernando poderia ser músico profissional, já não fosse ele um dos nossos maiores escritores.

Certo fim de tarde de Primavera, em 1977, entrou na minha sala, na Rede Globo, o casal Lúcia e Luis Fernando Verissmo, dizendo-me que naquela mesma noite embarcariam para Roma. Na época, o escritório da Globo na Europa era em Roma, dirigido por grande amigo, colega de profissão e ex colega, há uns 60 anos, de escola,  casado com uma publicitária minha prima e também executiva global na Itália.

Face ao fuso horário, não liguei para Roma, mas dei os nomes e telefones deles para o casal, na eventualidade de acontecer algum problema.

Manhã seguinte, bem cedo, ainda em casa, recebo o telefonema da Globo de Roma. Resumo da ópera: antes de chegar ao hotel, um pivete levou a “capanga” de Verissimo com dinheiro, passaporte e passagens. Já haviam emprestado dinheiro ao casal, contatado a companhia aérea e o consulado. O “nó” estava nos passaportes. Na ditadura, um passaporte brasileiro valia, na Europa, três mil dólares, comprados por subversivos que queriam voltar na clandestinidade. O consulado avisou que se os pauzinhos não fossem mexidos por aqui, o risco era eles passarem o Natal na Itália, ainda que o calendário marcasse o mês de setembro.

Telefonei para Mafalda, em Porto Alegre, que me passou as instruções quanto ao dinheiro que poderia – quando eles pudessem continuar a viagem – ser apanhado com a representante que   arrecadava os direitos autorais do Erico na Europa e cujo escritório era em Madri.

Quanto aos passaportes, avisei à Mafalda que o problema estava em nossas mãos. Acionei o diretor da Globo em Brasília e, pouquíssimos dias depois, um telefonema de Roma avisava  que o pessoal do consulado estava curioso para saber se a gente havia falado com o Geisel, pois nunca acontecera uma liberação tão rápida de passaportes.

Meses depois, o casal de volta ao Rio Grande, Verissimo mandou-me um bilhete que, pelo laconismo, já identificava o autor:

“Mario, é bom ter amigos, mas não precisa exagerar”.

Inté.

Autor

Mario de Almeida

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