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Amores de internete

As mulheres têm sido as vítimas vocacionadas dos amores de internet. Elas têm mais imaginação, fazem mais abstrações e sonham mais do que os …

As mulheres têm sido as vítimas vocacionadas dos amores de internet. Elas têm mais imaginação, fazem mais abstrações e sonham mais do que os homens. No entanto, homens são mais crédulos e quando afrouxam o raciocínio, constroem as suas deusas, as suas criaturas etéreas, carregadas de energias eróticas.

Em geral, quando marcam o primeiro encontro, pela via virtual, a realidade costuma ser cruel para ambos. Não que a pretendida ou o desejado sejam necessariamente barangas ou tribufus, dragões, peruas ou criaturas fantásticas de Borges, a ordem ou os perfis são irrelevantes. O fato é que, no primeiro encontro, eles são absolutamente estranhos. A intimidade conquistada ao longo dos meses volatiliza, como as grande fortunas aplicadas na bolsa de valores. É como se nunca tivessem conversado.

Eventualmente, os apelidos tatibitati, rebatizados pelos apaixonados virtuais, quanto mais dengosos e carregados de mimos e ternuras cifradas, serão inversamente proporcionais à estranheza da situação. E logo o castelo de cartas irá desabar (ou não) sob o peso de um constrangimento monumental. Imaginemos:

– Oi… você é o Tchutchuquinho?
– É, talvez…
– Como assim, talvez? É ou não é o Tchutchuquinho?
– Hã? Bem… digamos que sim, eu sou o Tchutchuquinho.
– Não pode ser, deve ser algum engano.
– Também acho, você é a Fofinha?
– Não é assim que você me chamou o tempo todo? Ainda que mal pergunte, onde foram parar os seus cabelos que eu vi na sua foto? Não me disse que era totalmente calvo.
– É, não disse mesmo, pelo mesmo motivo que você não me disse que era… digamos, gorduchinha né?
– Nossa, com este apelido não deu para sacar nada?
– Fofinha não é a mesma coisa que fofona.
– Você está me chamando de gorda? Escuta aqui, seu careca, eu sou a sua Fofinha, esqueceu? A mulher por quem você se dizia perdidamente apaixonado, horas e horas no telefone, esqueceu?
– Não, não esqueci, a sua voz é linda, no telefone.
– É mesmo? Agora eu sei por que a sua tinha aquela rouquidão, te vi fumando quando cheguei. Fumante, mentiu que tinha parado.
– E parei mesmo. Depois que termina um cigarro eu paro durante uma hora. Disse que tinha parado no intervalo. Depois começo de novo. Sou fumante, mas pelo menos não saí de um filme de Fellini.
– Por falar em Fellini, eu já vi o teu rosto em algum quadro do Picasso.
– Legal é que a gente se ofende em alto nível.
– Posso ver a sua carteira de identidade?
– Por que?
– Não acredito que só tenha 45 anos.
– Quanto você me dá?
– Sessenta e cinco.
– Bingo.
– Velho, careca e mentiroso. E fumante.
– Minto um pouquinho, mas não sou fofão.
– Gordura a gente perde né? A idade é mais dificil.
– Fofinha…
– O que foi? O que você quer, depois desta baixaria toda?
– Vamos conversar de costas um para o outro?
– Não tenha dúvida que vou dar as costas para você.
– Por favor, faça isso agora… só por um momento, por favor…

De costas um para o outro a conversa ficou mais íntima e finalmente se reconheceram.

– Estou com saudades da minha Fofinha…
– Eu também quero o meu Tchutchuquinho de volta.
– Tá legal, faz de conta que a gente nunca se viu.
– Boa ideia, adorei…
– A vida sem computador é inviável.
– Também acho.
– A que horas vamos abrir?
– É só dar tempo de chegar em casa.
– Eu te amo, na internet.
– Me too…
– Tchau, beijos, amor.
– Beijos, te amo, viu?

Autor

Paulo Tiaraju

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