Quando eu era menino, a viagem de carro de São Paulo para as praias de Santos ou de São Vicente era pela antiga estrada da Serra do Mar, pois não existia, ainda, a Via Anchieta.
Essa viagem pela antiga estrada da Serra do Mar tinha uma curiosidade muito grande, pois a Serra vivia envolta em cerração, o que dificultava a visão dos motoristas. Como, na época, todos os carros tinham estribo, alguém, na volta, durantre a subida na serra, viajava no estribo, indicando ao motorista as curvas: até hoje me lembro do monólogo do copiloto; “direita”, “esquerda”.
Inaugurada a Anchieta, seu nome não foi escolhido aleatoriamente, pois foi por esse caminho que José de Anchieta, declarado beato pelo Papa João Paulo II, um padre jesuíta espanhol (1534-1597), hoje conhecido como apóstolo do Brasil, saiu de São Vicente e chegou aos campos de Piratininga onde, com o também jesuíta Manuel da Nóbrega, criou o colégio que é considerado o marco da fundação de São Paulo, em 25 de janeiro de 1954.
Anchieta, aos quatorze anos de idade, deixou sua Espanha natal e foi para Portugal, onde foi estudar Filosofia no Real Colégio das Artes e Humanidades, anexo à Universidade de Coimbra. Em 1551, como irmão, ingressou na Companhia de Jesus.
Tendo o padre Manuel da Nóbrega, Provincial dos Jesuítas no Brasil, solicitado mais braços para a atividade de evangelização do Brasil (“mesmo os fracos de engenho e os doentes do corpo”), o Provincial da Ordem, Simão Rodrigues, indicou, entre outros, José de Anchieta, que se revelou, mesmo sofrendo de “espinhela caída”, um mens sana in corpore sano (quase).
Gramático, poeta, teatrólogo e historiador, Anchieta, apesar do intenso apostolado, foi um cultivador das letras, escrevia seus textos em quatro línguas – português, castelhano, latim e tupi, tanto em prosa como em verso.
Sua atividade nos diversos gêneros deixou uma obra copiosa e vão aí os vinte primeiros versos de Ao santíssimo sacramento, conforme a coleção Poesia.br, recém-lançada pela Editora Azougue.
Oh que pão, oh que comida
Oh que divino manjar
Se nos dá no santo altar
Cada dia.
Filho da Virgem Maria
Que Deus Padre cá mandou
E por nós na cruz passou
Crua morte.
E para que nos conforte
Se deixou no Sacramento
Para dar-nos com aumento
Sua graça.
Esta divina fogaça
É manjar de lutadores,
Galardão de vencedores
Esforçados.
Deleite de enamorados
Que com o gosto deste pão
Deixem a deleitação
Transitória.
Inté.
Vitrine (Correio virtual)
Meu amigo Rodrigo de Sá Menezes, baiano radicado em São Paulo, enviou a coluna anterior para o seu amigo acadêmico João Ubaldo Ribeiro que, por sua vez mandou a gravação de Vou me embora pra Pasárgada, na voz do próprio Manuel Bandeira, para o Rodrigo. Rodrigo, por sua vez, com as palavras – Drummond, Bandeira, Cecília Meireles, Quintana, Bilac… para lavar a alma – colocou a coluna em seu twitter.
Ave, Mario, honrando a última flor do Lácio, mais bela nessa tua seleção de versos. Poderia ainda aparecer o “Ora, direis, ” , mas está de bom tamanho. Tu vês, nossa língua tem sons que aqui gorjeiam e não gorjeiam como noutro lugar, mesmo sem exílio. Acontece que boa poesia também tem o dom de fluir, de cair musicalmente no ouvido. Desce redondinho. Como essas. Fáceis de dizer e de ouvir. Mas também é necessário saber escolher, como fizeste. Bj, Vera (Verissimo), Porto Alegre.
Meu “velho” amigo. Você poderá encontrar em http://www.marcomazzoni.com.br/pagina4.htm uma alternativa que poderia resolver não só o excesso de automóveis nas ruas como, provavelmente, vários outros problemas. Pensado há mais de 10 anos, escrito há sete, ainda está bem atualizado. Aliás, cada vez mais. Um grande abraço. Do “velho” Marco Mazzoni, Rio.
Se estivesse vivo, iria preso sem direito a fiança, o Manuel Bandeira. Bjx, Circe Aguiar, Rio.
Prezado Mário, foi bom sua crônica ter desviado para citar versos tão singelos de inspirados poetas, mas naturalmente isso tem tudo a ver com sua aflorada sensibilidade antenada com os fatos da vida. Abços. Aderbal Moura, Rio.
Falando em Castro Alves: “Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?
em que mundo, em que estrelas te escondes? embuçado nos céus.
Por abutre me destes o sol ardente e o canal de Suez foi a corrente que me ligaste aos pés”… José Andreata Neto, Rio.

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