Como não me lembro de nenhuma crônica, matéria, notícia ou coisa parecida que comece por uma errata, vou inaugurar essa exdrúxula maneira de dar a mão à palmatória, ainda que feliz, muito feliz por não estar fazendo análise, pois meu erro seria um prato cheio para algumas sessões, tratando-se, como foi o caso, de uma crônica sobre comida. Semana passada escrevi aqui “cuscuzeiro”, grafia correta, e cinco vezes “cuscus”, grafia incorreta. Fiquei abismado face à intimidade que tenho, não só com o cuscuz propriamente dito, mas com a palavra também. Ao reler a crônica, acho que matei a charada, pois referindo-me ao cuscuz argelino, devo haver pensado na grafia em francês, cujo final é “ous”. E agora explico para os jornalistas menos idosos que antes da existência do “lead”, as matérias começavam sempre com um “nariz de cera”, igualzinho a esse nariz digno de Cirano de Bergerac que acabo de escrever.
Entre as muitas alegrias que a Internet oferece a quem, como eu, gosta de celebrar a amizade, devo à Coletiva a reaproximação com antigos companheiros e até alguns novos e estimulantes conhecimentos. E, por ser um jornal digital, a interação entre cronista e leitor é gratificante. Foi o caso de minha crônica anterior – Do churrasco à buchada com final feliz – que encheu meu Outlook com mensagens de diversas procedências. Minha sobrinha cearense, Patrícia, ao ler que a mãe e os tios tinham “tomado” um café da manhã com buchada e sarapatel, no Mercado em Fortaleza, mandou seu alô de Los Angeles: “Muito legal… tô imaginando esta galera no Mercado… “.
Citei o café colonial do Pátio São Pedro e do Recife veio o abraço do economista David Garcia: “E quando aparece para a gente terminar o domingo lá?”.
De Gustavo Borges, da minha equipe na Fundação Roberto Marinho, hoje na TVE, filho do saudoso Borjalo veio: “Mario, muito legal, especialmente por lembrar nosso querido Magaldi. Abração”.
Da querida amiga e companheira de trabalho por muitos anos, Lia Moreira, o e-mail chegou de Teresópolis: “… E a Crônica de hoje me abalou: o cuscuz, que tive o privilégio de comer, lembranças de João Carlos Magaldi e de Luzia, veja! Ainda bem, amigo, são todas boas lembranças. Obrigada por me fazer lembrar de coisas gostosas. Beijinhos prá todos”.
Do antigo companheiro de TV Globo, hoje na Contemporânea, o publicitário amigo Carlos Pedrosa, um microgostoso recado: “Bbelissima gastrocrônica, Mario”.
Meu vizinho, Cláudio Fischgold, antigo funcionário da RJ Reinynolds, de 1985 a 90 viajava muito para o Rio Grande e o café colonial despertou-lhe lembranças gustativas: “Infelizmente a minha memória não anda tão boa como a sua. Se estivesse, eu lembraria o nome do local onde, em muitas ocasiões, degustamos, eu e Palmira algumas vezes, eu e colegas da companhia em outras, o maravilhoso café colonial, em Santa Cruz do Sul”.
De São Paulo, como havia citado um leitor de todas as semanas, antigo colégio de ginásio, o amigo e engenheiro José Carlos Pellegrino, chegou uma mensagem de modéstia: “Grato, porque desta feita fui citado no final de sua crônica. Imerecidamente, por certo. Abraços”.
De Porto Alegre, minha amicíssima Vera Veríssimo salivou: “Íssimo , fiquei com água na boca quando li sobre o cuscuz. Assim, nunca comi. Há pratos parecidos, nada a ver. Beijinho”. Vera aproveitou para me dar, a pedido, uma aula sobre schimia e geléia e me devolveu o castigo da “água na boca”.
Do alto de Gramado, José Antonio Moraes, o “Killer”, do antigo Teatro Universitário, mandou: “Mario, sua crônica sobre memórias de comidas me deu ganas de visitar mesas do passado, mas elas estão longe ou não existem mais. A propósito, lamento informar que aquele café colonial de tuas e minhas lembranças não sobrevive à moda da “gastronomia para turistas”. Encontra-se de tudo nos ditos cafés coloniais, servidos para o povo que desembarca às centenas dos ônibus da CVC. Ainda sobrevivem, entre mini-pizzas, fatias de presunto Sadia e de queijo estepe, um ou outro potinho de schmier ou de kaeseschmier, algumas cucas e bons pães coloniais. O mesmo acontece com a maior parte dos “almoços coloniais” que faziam a alegria dos motoristas de caminhão no caminho de Caxias, lembras? Encontrei alguns lugares onde ainda servem 15 ou 16 pratos como eisbein, galeto, polenta, bruscelatta, radiche, bolos de arroz, matambre, lombinho de porco, macarrão ao pesto e linguiça frita. Mas “rollmops” (arenque marinado com cebola) never more… Até o ano passado, isso acontecia ao som de Allelluia de Haydn no restaurante da Pousada das Neves, em Nova Petrópolis, mas a casa fechou (deve ter sido pela simples razão que cobrava 17 reais por tudo isso e o céu também…). Ainda se come um churrasco decente em algumas mesas, como na pousada Vale dos Cisnes, em São Francisco de Paula, onde fazem o assado em vala e servem arroz a carreteiro em panelão. Um faminto abraço”. Ganhei, ainda, do Killer, outras considerações gastronômicas e a receita de um arroz a carreteiro com punhos de renda.
Na crônica “Notícias da Estátua” fiz referências a muitas amizades iniciadas no saguão da Biblioteca Municipal de São Paulo, hoje Biblioteca Mário de Andrade, e, entre elas, citei o amigo-irmão, o cenógrafo e designer Cyro Del Nero, também professor da USP. Pois hoje, quando apenas “costurei” e-mails dos amigos leitores, entrego a chave para o Cyro fechar por mim, agradecendo a todos que escreveram a crônica desta semana:
“Mariolino: Parabéns pelo DO CHURRASCO À BUCHADA COM FINAL FELIZ. Lembrou a universalidade do texto do Pedro Nava sobre – de como comer a feijoada. ‘”Primeiro forre o prato com a farinha”, etc. Não me lembro bem do texto do nosso amado Nava, a não ser do prazer que ele me trouxe na descrição dos prazeres da mesa, um dos fundamentais. Nada como alguém falando dos prazeres (alimentos terrestres) com a altura de um poeta. Fiquei feliz também com o seu texto por outra razão. Pela aura de amizade que a mesa consagra e exalta e há sobre isso um ditado grego já conhecido em tempos e textos homéricos: A amizade nasce ao redor de um caldeirão no fogo. É uma máxima que pode ser visualizada como um desenho num belo vaso grego: deuses e heróis nos portões de Tróia, agachados, escudos e lanças abandonados no chão e o riso, a satisfação e o nascimento da fraternidade viril, ao redor de um caldeirão no fogo. E Odisseu lhes segreda sobre a idéia de um cavalo que os vai colocar sobre o destino. Um beijo saudoso do Cyro.”
Inté.
PS – Vou investigar com cuidado tuas indicações em Nova Petrópolis: Azaléia, Opa’s Kaffeehaus, Serra Verde, Park Haus, Sabor do Campo e o Recanto dos Plátanos.
* Mario de Almeida é jornalista, publicitário, dramaturgo, autor de “Antonio’s, caleidoscópio de um bar” (Ed. Record), “História do Comércio do Brasil – Iluminando a memória” (Confederação Nacional do Comércio), co-autor, com Rafael Guimaraens, de “Trem de Volta – Teatro de Equipe” (Libretos) e um dos autores de “64 Para não esquecer” (Literalis).

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