Apenas mais de quatro mil mortes num dia no Brasil

Por Márcia Martins

Nesta quarta-feira, 7 de abril, assinalo na minha agenda de papel (sim, eu ainda a uso), meus 388 dias no mais completo isolamento, sem escapadas, sem fugas, sem saídas desnecessárias e fúteis para depois postar hashtags falsas de politicamente correta nas redes sociais. Pela minha resistência e persistência em permanecer no confinamento total, sem esta palhaçada de distanciamento controlado, deveria comemorar. Afinal, desde 16 de março, consigo afastar da minha vida este Coronavírus. E, se nada mais acontecer (nunca se sabe), talvez até o dia 15 de abril, meu braço finalmente receba a primeira dose da vacina contra o Covid e eu ande, a partir de então, mesmo que dentro de casa, fantasiada de jacaré fêmea.

Aliás, na terça-feira passada, excepcionalmente sai pela manhã para uma aplicação de saúde necessária para o controle de uma doença crônica autoimune (que é feita periodicamente). E, pela primeira vez, desde que o médico me sentenciou o isolamento, ele achou que a minha aparência estava melhor, o rosto um pouco mais corado e o temperamento atestando um certo ar de positividade. 

Mas, tudo mudou ao acompanhar, no início da noite, as notícias da escalada da doença no Brasil. E meu humor voltou a ficar amargo e insuportável porque no dia fatal e indesejável em que o Brasil atingiu o recorde de 4.195 mil mortes, o presidente Jair Bolsonaro disse que resolveria o problema da Covid-19 em poucos minutos; pagando a Rede Globo. Isto é, segundo o mandatário maior do País, o sofrimento dos familiares dos 337 mil que perderam seus entes queridos em decorrência do Coronavírus é tudo uma mentira articulada por um grupo de comunicação que está à espera de recursos financeiros.

Enquanto isto, a Câmara dos Deputados debatia o projeto de Lei 948/21 que amplia a compra de vacinas pelo setor privado e é chamado pela oposição de projeto "fura fila". Para entender, o autor da proposta, deputado Hildo Rocha (MDB-MA), diz que a ideia é acelerar a vacinação em massa da população. E eu pergunto: "permitindo que o setor privado compre doses de vacinas e diminua a quantidade para o SUS"? Já o deputado Henrique Fontana (PT-RS) defende que a proposta vai estabelecer a vacinação na base do salve-se quem puder. "Se combate uma pandemia primeiro protegendo os setores mais vulneráveis para evitar mortes e evitar que o vírus se propague", afirma.

Pois é, deputado Henrique Fontana, nem todos e todas têm esta visão correta de como se proceder numa pandemia que matou, até ontem à noite, mais de 337 mil brasileiros e brasileiras.

Hoje, no Dia Mundial da Saúde e no Dia do Jornalista, não temos muito o que comemorar. Mas é preciso agradecer sim aos profissionais da saúde que, desde o início desta tragédia da Covid-19 mostram-se verdadeiros heróis colocando suas vidas em risco para tentar preservar vidas de pessoas desconhecidas que talvez encerrem ali naquele contato sua passagem por este plano. E agradecer meus colegas jornalistas - apesar de mais uma manifestação ignorante do presidente do Brasil - pelo trabalho incessante na busca de notícias deste vírus e pela isenção ao informar as mortes. Quando a vontade é não segurar as lágrimas. 

Autor
Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Famecos/PUCRS, militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editoriais de economia e geral, e em assessorias de comunicação social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em antologias, diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do RS (Sindjors), e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA), gestão 2019/2021.

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