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Apenas rastros no mar

O passado não é aquilo que passa, é aquilo que fica do que passou.Tristão de Athayde Janeiro de 1957, Rio, Teatro Regina, hoje Dulcina, …

O passado não é aquilo que passa, é aquilo que fica do que passou.
Tristão de Athayde

Janeiro de 1957, Rio, Teatro Regina, hoje Dulcina, Festival Nacional de Teatro Amador. O Teatro Universitário  de Porto  Alegre – T.U. –  apresenta-se com “À Margem da Vida”, de Tennessee Williams, com Lilian Lemmertz e Antônio Abujamra – também o diretor – nos papéis principais.

Eu dirigira “A Almanjarra”, de Artur Azevedo, para o Teatro Rural do Estudante, do Rio, montagem premiada naquele festival.

Abujamra e eu já nos conhecíamos  de São Paulo, onde ele passava as férias e eu ainda residia lá. A gente se via na Biblioteca Municipal ou nas platéias dos teatros. Naquele festival, convidou-me para dirigir uma peça para o Teatro Universitário, do qual ele era o capo. Fui.

O Perfil de Flávio Tavares foi traçado aqui, no site da Coletiva, dia 22 de setembro. Flávio, em 1955, como presidente da União Estadual dos Estudantes (RS), deu vida ao Teatro Universitário como um braço artístico da entidade. Portanto, fui para Porto Alegre, remunerado pelo T.U. através da subvenção da UEE. Depois, dirigi peças para outros grupos e acabamos fundando o Teatro de Equipe.

Quando fui, conheci Flávio Tavares como jornalista e censor – foi para a Censura no Governo Meneghetti e, com Lara de Lemos, formava a dupla não-retrógrada do órgão estadual. Flávio assistiu a alguns ensaios da minha peça “O Despacho” e preocupou-se com sua linguagem agressiva e debochada. Fiquei de entregar a peça nas mãos dele, para evitar acidentes de percurso na sua liberação. Quando chegou a hora de tirar o certificado – 1961 –, Flávio estava em Punta Del Leste, cobrindo a Conferência da Organização dos Estados Americanos, quando Ernesto “Che” Guevara, no retorno para Cuba, deu uma paradinha no Brasil para ser condecorado por Jânio Quadros, gesto que escandalizou a maior parte dos eleitores do então presidente.

Atemorizado pela ausência do Flávio, apesar de me dar muito bem com Carlos Contursi, chefe da Censura, apelei para a cultura brasileira. Sabendo que a repartição funcionava, aos sábados, até o meio-dia, apareci lá dez minutos antes e saí com a peça liberada.

Em 1961, nossos caminhos cruzaram-se no Palácio Piratini, em defesa da Legalidade, ele como repórter e eu fornecendo material de propaganda para o movimento, inclusive o hino criado por Lara de Lemos e Paulo César Peréio. Quando voltei a trabalhar na Última Hora gaúcha, Flávio já estava em Brasília, cobrindo a política nacional para todos os jornais estaduais da rede da UH.

Flávio me contatou, cinco anos depois do golpe de 1964. Nosso reencontro foi num sábado à tarde, no Antonio”s, e, entre goles de uísque, ele me colocou a par de suas atividades antiditadura. Acertamos minha contribuição financeira e, tempos depois, Flávio, o “Dr. Falcão”, caía, assim como toda a sua organização.

Essa triste história ele contou em seu livro Memórias do Esquecimento*. Trocado pelo embaixador americano seqüestrado, Flávio foi para o México. De lá, aproveitando a passagem do publicitário carioca Carlos Pedrosa, mandou-me uma carta, lida e destruída na própria sala do colega.

Na noite de 5 de novembro de 2001, a Feira do Livro promoveu o painel “Teatro de Equipe – Casa da Inteligência de Porto Alegre”, e lá estive como  convidado. Eu estava na Mesa e, pouco depois do início, anunciei: “Acaba de adentrar no recinto o dr. Falcão, também conhecido como Flávio Tavares”. Naquela noite, jantamos com um grande grupo e, depois, Flávio deixou-me em casa de meu filho adotivo. Naquele painel, conheci o jornalista Rafael Guimaraens.

Em 7 de junho de 2004, Flávio lançou, no Rio, seu livro “O Dia em que Getúlio matou Allende”**. Essa noite, que relatei aqui em Coletiva, acabou marcando a última aparição pública de Brizola que, duas semanas depois, despedia-se “da vida para entrar na História”.

Hoje, Flávio, em Búzios, e eu, no Rio, trocamos notícias, assim como Abujamra que, há 42 anos, cobra-me uma peça, “A História da Batatinha”, que comecei a escrever em Porto Alegre antes do golpe e jamais continuei.

Naquele verão de 1957, conheci Lílian Lemmertz, Fernando Peixoto, Luiz Carlos Maciel e, além do velho Abu, todos trabalharam comigo. Lílian – que se foi cedo – e Linneu Dias (premiado como melhor ator de 1957, na primeira peça que dirigi em Porto Alegre), morto há quatro anos, são os pais de Júlia Lemmertz, que conheci bebê em São Paulo.

Aquele convite do Abu, em 1957, só possível por um gesto do Flávio em 1955, culminou em sete anos da minha querência gaúcha, mais amores, amizades eternas e um filho que adotei, Eloí Flores da Silva. Da parceria com Rafael Guimaraens, nasceu o livro Trem de Volta – Teatro de Equipe.

Daquele gesto do Flávio, abraçando um projeto do Antonio Abujamra, surgiram diretores, artistas e cenógrafos teatrais. O mesmo gesto que apontou minha bússola para o Sul – um paulista que decidira fazer teatro no Rio – e prova as profecias que habitam os poetas.

A última página do livro sobre o Equipe é um canto do poeta espanhol Antonio Machado traduzido, a meu pedido, pela psicóloga e poeta Vera Veríssimo que, em 1958, então Vera Gomes, foi a Julieta da minha versão da tragédia shakespeariana.

Provérbios Y Cantares
Canto XXIX

Caminhante, são os teus vestígios
O caminho, e nada mais:
Caminhante, não há caminho,
Se faz caminho ao andar.
Ao andar se faz caminho,
E ao voltar a vista para trás
Se vê a senda que nunca
Se há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
Apenas rastros no mar.

Inté.

* Editora Record – Prêmio Jabuti 2000

** Editora Record – Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte – 2004

Autor

Mario de Almeida

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