Chamava-se Pretinha e era uma poodle de pureza desconfiável.
Depois de algum tempo dividindo-se entre os familiares, optou por ser minha cadela.
Dizia a turma de casa que quando eu chegava no edifício, ela já ia para a porta do apartamento – 14º andar – à minha espera.
Quando eu viajava, ficava um ou dois dias sem se alimentar.
Acompanhava-me à Bocha e acabou virando a mascote do grupo, com direito à fotografia em revista de luxo do Condomínio.
Certa noite, quando chegou um companheiro nosso que ela estava farta de conhecer, começou a latir e eu tive que afastá-la do personagem, sem entender o motivo. Naquela mesma noite, o companheiro foi surpreendido por uma crise de apendicite e foi operado.
Fazia parte de nosso grupo um piloto gaúcho da VASP, que, inclusive, esteve algumas vezes em casa assando um churrasco de ovelha e, por isso, a Pretinha também o conhecia. De repente, quando o Gaúcho chegava, a Pretinha começava a latir, cada vez com mais intensidade até que ele deixou de nos frequentar. Pouco tempo depois, morria de câncer.
Diga-se de passagem que Pretinha era um animal dócil, que não nos perturbava na Bocha e ficava quietinha presa na sua coleira. Algumas vezes, inclusive, antes de eu chegar em casa, lembrava-me que a havia esquecido e voltava para apanhá-la, sem maiores problemas. Pretinha era uma dama, mas esperta.
Eu não me importava que Pretinha subisse na nossa cama, mas minha mulher não gostava e Pretinha não insistia. Quando eu estava no quarto e Aurea saía, ela ouvia a porta batendo e pulava para a cama.
Era no quarto que Pretinha me prestava o maior serviço. Eu, deitado, lendo e ouvindo música, não ouvia as campainhas das portas e nem o interfone. Quando um deles tocava, Pretinha no chão, ao lado da cama, me avisava com as patas dianteiras, na maior delicadeza, que estavam tocando. O interessante é que quando tocava a extensão do telefone no quarto ela nem se movia, pois sabia que o telefone era meu departamento.
Há anos, com complicações no fígado, passou o dia na veterinária. À noite, sem que ninguém percebesse, discretamente, morreu.
Passados anos, Pretinha não é apenas a lembrança de uma cadela.
Pretinha é uma ausência substantiva.
Inté.

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