Há duas noites sem dormir, caminhava sem destino na Avenida Central, olhos fixos no chão. Avistou uma guimba pouco fumada e apressou-se a catá-la.
Sabia duas coisas: que não tinha fósforos e muito menos coragem de, com a guimba, pedir fogo a algum fumante que passasse com seu cigarro aceso.
De tudo que perdera, ou do que abrira mão, restava-lhe a dignidade de um ser carente de tudo o que perdera, menos a dignidade.
Começou a prestar atenção para ver se algum pedestre, menos educado, jogasse na calçada uma guimba inda acesa.
Enquanto caminhava, atento na sua possibilidade de fogo, permitiu que alguns lances lhe chegassem à memória, como uma absurda apresentação de fragmentos não solicitados.
O rompimento com Maria e o barulho de uma porta batendo foram a gota d’água para tudo que iria, a partir da porta batendo, iniciar um processo de rompimento com a realidade que, há muito, angustiava sua cinzenta condição de um gerente de banco.
Apalpou os bolsos com as mãos, gesto automático de quem, durante anos, catava no bolso uma caixa de fósforos. Pensou um “merda” e voltou sua atenção para a calçada à cata daquele fogo salvador. Nada.
Um novo fragmento levou-o à sua abandonada mesa no banco, esvaziando gavetas e colocando tudo numa sacola de supermercado. Terminada a tarefa, levantou-se, olhou para a porta de saída e, sem falar uma palavra com alguém, ganhou a rua ou aquilo que pensava ser a liberdade.
Na primeira lata de lixo encontrada na rua, enfiou a sacola, sem mesmo despedir-se de sua identidade.
Inda que achasse improvável conseguir uma guimba acesa, continuou caminhando atento à calçada.
Voltou a lembrar-se da manhã em que, abandonando o seu curso universitário, desfrutou dias com a imensa alegria de supor que acabara de ganhar a liberdade.
Lembrou-se novamente de sua saída do banco.
Lembrou-se da porta batendo.
Mesmo não querendo, lembrou-se de Maria.
Jogou a guimba fora e deu-se conta que sua vida tinha sido um gesto de jogar as coisas fora.
Inda que fosse para nada, vazio de esperança, apertou o passo.
Eduardo colocou o ponto final no conto que acabara de escrever.
Suspirou aliviado ao achar seu isqueiro debaixo de uma folha de papel.
Enquanto acendia um cigarro, acompanhava, no computador, a revisão automática do seu texto.
Dando-se por satisfeito, encaminhou o trabalho para Vieira, o editor da revista para a qual colaborava.
Com a sensação de dever cumprido, conferiu o computador desligando-se.
Pegou o telefone e ligou para Maria.
Inté.
Vitrine (Comentários dos leitores)
Mario querido: Uma deliciosa crônica sob a “inspiração” das Cores de Abril. Ainda mais na perspectiva de assistir à estreia de Roma, de Fellini, na própria Cidade Eterna. A propósito, sinta a força deste aforismo do Imortal Thomas Stern Eliot (1888-1965) Nobel de Literatura em 1948: Onde está a vida que perdemos vivendo; Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento; Onde está o conhecimento perdido na informação? The Waste Land, 1922. Aquele Abraço do Francisco Cunha, engenheiro agrônomo, professor, Florianópolis.
Ah! agora sim. Não tinha entendido aquele “Ei-la”, que ficou no final da coluna. (referindo-se à errata com a imagem da Place de Contrescarpe devidamente inserida na coluna. M.A.).
Já estava pensando em te dizer que a coluna da Márcia me remeteu ao princípio de que os significados variam com a percepção de cada um. Parece haver um consenso de que o outono é a mais bela estação de POA, e a melhor, mas não é assim para todos. Para mim, é. Acresce o fato de que termina aquele calor horroroso, e o tempo é ameno. Hoje está anormalmente frio, mas bom. E o azul do céu é inexcedível. Que mais? Inicia-se a temporada de arte, termina a necessidade de ir à praia e começa a verdadeira vida, a da mente. Apesar de que hoje não há mais temporada, há arte o ano todo. Elliot estava mais ligado na primavera. Não deixa de ser muito europeu, isso. Ou seja, dos países frios. Mas talvez também fico pensando que o carioca não tem essa experiência incrustada na lembrança, de dormir debaixo de cobertores macios, de enrolar um cachecol no pescoço, de cobrir a cabeça com um lenço, de tomar vinho em frente à lareira, de tomar sopas quentes, de ir olhar o parque em meio à cerração, de ver a geada branquear as plantas. Tudo isso também é muito bom. Na época em que atravessaste tudo isso, curtias de outra maneira, pois estavas começando a vida. Tudo era expectativa, mas às vezes tinhas frio, tinhas pouca roupa, mas eras só vibração. Hoje temos muito conforto, mas naquela época tínhamos o conforto da esperança no futuro. O frio da madrugada, após os ensaios, era curtido ao redor da mesa do bar, em discussões intermináveis. Será que a felicidade não consiste em ter boas lembranças?
(Errata: Honey, fui ao T.S. para ver o início do poema, e ver como foi traduzido. Há uma alteração na tradução, mas isso é outra história. Eu não sabia a qual poema estavas te referindo, pois colocaste A Terra. É A Terra Devastada, The Waste Land. Faltou o Devastada. Acho que é importante pois és sempre muito cuidadoso nessas questões literárias e suas indicações). Beijo, Vera (Verissimo), Porto Alegre.
Jovem Mario, obrigado por mais este sopro. Moisés Andrade, arquiteto, Olinda/Recife.
Pai, abril não foi mesmo um mês bonito pra mim, mas a crônica sim, esta é linda. Espero estar logo no humor em que você se encontrava quando recebeu o postal. Te amo. Um beijo. Rachel Almeida, filha, jornalista, Rio.

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