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Aqui, lá, cá, acolá…

Nostradamus não avisou quedepois do Dilúvio viria o Delúbio. Estava eu chupando gomos de tangerina já em fim de safra, lastimando o ridículo deste …

Nostradamus não avisou que
depois do Dilúvio viria o Delúbio.

Estava eu chupando gomos de tangerina já em fim de safra, lastimando o ridículo deste inverno carioca e pensando em você, caríssima leitora, ou caro leitor. Perguntava – como Mário Quintana – “mas que vos dar de novo e de imprevisto?”.

As praias do Rio Grande sabem que fui jogral e saltimbanco e eu – que poucas vezes fiz desprezíveis versinhos – sei que enquanto o xará (tocaio, em gauchês) fazia versos como “os saltimbancos desconjuntam os ossos doloridos”, eu mambembava por lá, mas sem jamais tentar viver sem poesia.

Enquanto chupava um gomo e outro, lembrei-me do já muito comentado encontro do Presidente com intelectuais e artistas, no Rio, e, como escreveu Machado de Assis, esse fato dependurou-se no meu “trapézio de idéias”.

Quanto aos intelectuais, achei um encontro muito estranho, tão estranho quanto o local onde Ele deu uma entrevista à TV, ou seja, na biblioteca do Palácio. Os livros à vista lembraram-me o título do filme sobre Al Capone: “Os Intocáveis”. Pela lógica, com intelectuais, só poderia acontecer mais um desencontro.

Quanto aos artistas, pode ter sido uma justa deferência para com Aquele que mais tem me arrancado gargalhadas nos últimos tempos.  

O imprevisto, no encontro, foi a merda que o Paulo Betti jogou no picadeiro, afirmando que não se faz política sem por a mão nela, a merda. 

Vaidade é coisa que caracteriza o artista. O músico Wagner Tiso, percebendo que o Betti iria roubar a cena, aceitou o desafio, pegou o mote à unha e devolveu, mais ou menos assim: “Estou me lixando para a ética”.

Fiquei dias ruminando essas esdrúxulas colocações, imaginando o motivo pelo qual o Betti acusou que estava diante de um Presidente cheio de merda nas mãos. Há quatro anos ele disse que não votaria no Candidato, por não entrar em cinema, bobagem irrelevante. Quanto ao Tiso, que coragem de afirmar, cara a cara com o Presidente – e de público – que também jogara a ética no lixo! 

Enquanto eu degustava a minha tangerina fim-de-safra, o jornalista Diego Mainardi trabalhava e dedurou alguns dos presentes ao encontro, entre eles, José de Abreu e Wagner Tiso, como uns dos que se nutrem em mamas oficiais. Abaixo, um trecho do artigo de Mainardi, “O mensalão das artes”.

“José de Abreu é ator. Apóia Lula. Os americanos decidiram boicotar Mel Gibson por seu anti-semitismo e Tom Cruise por sua cientologia. Podemos boicotar José de Abreu por seu lulismo. Ele é nosso Mel Gibson. É nosso Tom Cruise. A Eletrobrás patrocinou o último espetáculo teatral de José de Abreu. É um monólogo em que ele interpreta José Dirceu, José Mentor e Gilberto Gil. Uma gente da melhor qualidade. Liguei para a assessoria de imprensa da Eletrobrás e perguntei quanto José de Abreu ganhou pelo espetáculo. Foram precisamente 145.900 reais. É muito? É pouco? Que sei lá eu?”

Outro trecho:

“Wagner Tiso também apóia Lula. Fui conferir sua agenda. Vi que ele rege a Orquestra da Petrobras, toca no Domingo na Funarte, coordena as Quintas no BNDES, viaja a Paris a convite do Ministério da Cultura, é mandado a Goiás pelo Ministério do Turismo, apresenta-se no Centro Cultural Banco do Brasil, e pede tutu da Lei Rouanet para gravar um CD comemorativo de sua carreira.”

Mainardi confessa que se esforçou muito para saber quanto Tiso faturou de verbas oficiais nos últimos anos, mas não conseguiu.

Li o Arnaldo Jabor e vi que raciocinamos de forma absolutamente igual, achando que a reunião tirou as dúvidas dos mais céticos quanto à postura dos atuais detentores do poder. Delúbio, Zé Dirceu e outros são apenas uma parte da merda total. 

Fala Jabor:

“… esses bravos criadores de arte e pensamento estão trazendo à luz do dia, num ato falho espetacular, a verdadeira ideologia que orienta o PT. Os petistas do governo ficam enrolando e, aí, vêm uns artistas ingênuos e abrem o jogo cuidadosamente escondido. Prestaram um serviço à verdade, porque muita gente boa repete, como robôs do Lula: “Sempre foi assim, corrupção endêmica, sobras de campanha, houve erros éticos, todos os partidos fizeram isso…””

Como idéia é coisa que não se ancora, a tangerina (bergamota, nos Açores e no Sul do Brasil) levou-me às goiabinhas, fruta predileta do inefável Stanislaw Ponte Preta que, na Ditadura, arrancava gargalhadas dos brasileiros com o seu FEBEAPÁ – Festival de Besteiras que Assola o País.

Quarenta anos depois, o que assola o país é um festival de merda e o poeta paulistano, Glauco Mattoso, pergunta num haikai:

Sai menos fedor
se a merda for arejada
no ventilador?

Não sou eu quem escreverá sobre isso.

Como há cem anos, nascia no Alegrete o tocaio Quintana, prefiro brindar leitoras e leitores (imodéstia quantitativa, mas a família é grande) com o soneto dele que, em 1958, eu iniciava, no Theatro São Pedro, “Poetas & Poemas”, espetáculo onde também participavam Nilda Maria, Marlene Ruperti, Glênio Peres, Luiz Carlos Maciel e Paulo José.

Eu faço versos como os saltimbancos
Desconjuntam os ossos doloridos.
A entrada é livre para os conhecidos…
Sentai, Amadas, nos primeiros bancos!

Vão começar as convulsões e arrancos
Sobre os velhos tapetes estendidos…
Olhai o coração que entre gemidos
Giro na ponta dos meus dedos brancos!

“Meu Deus! Mas tu não mudas o programa!”
Protesta a clara voz das Bem-Amadas.
“Que tédio!” o coro dos Amigos clama.

“Mas que vos dar de novo e de imprevisto?”
Digo… e retorço as pobres mãos cansadas:
“Eu sei chorar… eu sei sofrer… Só isto!”

Inté.  

Autor

Mario de Almeida

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