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Aromas e Cheiros

Por José Antônio Moraes de Oliveira

“O aroma é a forma mais intensa da memória.”

 Jean Paul Guerlain.

Certos odores, cheiros, perfumes e fedores da infância nunca desaparecem de nossa memória. Ao mesmo tempo, outros perfumes e odores acabam varridos pelo esquecimento, como folhas amareladas de Outono. Um capricho do Senhor Tempo muito difícil de decifrar.

***

Ainda recordo do som da madeira verde crepitando no fogão no sobrado da Vasco da Gama. E do fogão a lenha na fazenda do Passo Grande – eu acordava ouvindo o estalar das grandes achas de lenha e o cheiro do leite fervendo. A um canto da mesa, tomava café-com-leite, olhando a avó Ana Augusta e a mãe nas lides da cozinha, mexendo nas panelas, bulindo nos pratos, garfos e facas. Cheiros e gestos que desapareceram, permanecendo apenas no fundo da minha memória afetiva.

Mordendo a broa de milho ainda quente, sem tirar os olhos do fogo que nunca se apagava, brasas e tições avermelhando a escuridão das noites silenciosas. Antes do sol nascer, a avó chegava com um candieiro na mão, juntava gravetos, assoprava as brasas e o fogo voltava forte, aquecendo a cozinha. Durante a manhã, a movimentação enchia a casa com sons e cheiros dos grandes panelões de ferro, com feijão preto, arroz, caldos e carnes. No meio da tarde, depois da pausa da sesta, recomeçava a faina. Era a hora do preparo das frutas recém-colhidas que iam virar doce: marmelada, goiabada, doce de laranja e de batata-doce.

As panelas ficavam por horas no fogo, as mulheres se revezando, mexendo as misturas e enfiando mais lenha no fogão. Caía a noite, o perfume das caldas ferventes chegava até os quartos e íamos para a cama sonhando com a hora de provar aquelas doçuras coloridas.

***

O tempo passou e um dia voltei até os campos de minha infância. O casarão estava silencioso e deserto e na cozinha, o antigo fogão estava se enferrujando aos poucos. Na parede, as prateleiras vazias se cobriam de poeira. Era ali que ficavam os vidros de compota com os doces – de ananás, ameixa, bergamota, batata doce, figo, goiaba, marmelo. A imagem que ficou daqueles distantes dias de verão, era uma luz oblíqua do sol se infiltrando pela janela, fazendo brilhar os amarelos, vermelhos, verdes e roxos-azulados.

***

 

      

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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