…Assim se conta essa história
Que é dos dois a maior glória
A Leopoldina virou trem
E D.Pedro é uma estação também…
Samba do Criolo Doido Stanislaw Ponte Preta
Se é assim que o diabo gosta…
Quarta-feira, 9 de maio, data de praga já rogada, em torno das quatro da tarde, coloquei o ponto final na que seria a coluna de hoje e fui ver se havia alguma participação de leitor na “Vitrine”.
Havia. Era de meu caríssimo amigo, escritor e jornalista dos bons, mas, acima de tudo, um antigo e sempre caríssimo amigo Altamir Tojal, nascido em Marechal Deodoro, um município de Alagoas, antiga capital do estado e a apenas cerca de 30 quilômetros de Maceió. Não só havia e que quando fui inserir a nota do Altamir na “Vitrine”, o computador engoliu coluna e nota. Fiquei nu de palavras.
Indo de carro de Aracaju para as Alagoas, conhecemos, Aurea e eu, Penedo, cidade à beira do Rio São Francisco plantada entre 1560 a 1565, demos uma volta por Marechal Deodoro, conhecemos Maceió quando o prefeito era Fernando Collor de Melo e seu irmão, depois alcaguete Pedro, com o qual tive uma reunião, dirigia a TV Gazeta, um dos veículos da Organização Arnon de Melo, aquele senador que atirou num outro senador, errou e matou outro.
Em Marechal Deodoro encontra-se a Praia do Francês, sempre festejada e das mais belas deste imenso litoral com 7.367 km (9.200 km se forem consideradas as saliências e reentrâncias).
Praia do Francês (?!), interroga-me um fictício nacionalista radical. Sim, já foi dos Franceses em desonrosa homenagem à nacionalidade da maioria dos navios piratas que lá aportavam. Mesmo antes da crise europeia, os nativos já a haviam rebaixado para o singular. Assim o local, mais humilde, mesmo sem ser pão, virou do Francês e pode ser degustado por aborígenes, japoneses e máquinas fotográficas.
Quanto ao Marechal Deodoro da Fonseca, nascido Manuel na cidade que não tinha ainda, é óbvio, o seu nome e se chamava Alagoas, ignorava que lhe haviam destinado a ser o executor factual do Império, fundando, junto com uma leva de militares e civis ilustres, nossa república, que já sofreu duas ditaduras, uma civil e outra militar e ganhou, depois de mais de século, um gestor de negócios, o bicheiro conhecido como Carlos Cachoeira.
(Quanto à ditadura militar, imposta a pretexto da deposição de Jango presidente, durou quase 20 anos, até que um garoto mais atualizado e mais atrevido, chegou a alguns ouvidos de milicos do SNI – Serviço Nacional de Informação – e assoprou que Jango estava morto havia quase 10 anos).
Nossos livros escolares saem-se muito mal no capítulo reservado à Proclamação da República e lembro-me até de um quadro onde Deodoro, montado a cavalo, quepe na mão, grita “Viva a República”.
Na verdade, na véspera, 14 de novembro de 1889, boatos divulgados e multiplicados por jovens oficiais do Exército davam notícia de que o governo ordenara a prisão de Deodoro, Benjamin Constant e outros líderes republicanos. O boato fez que a proclamação da República fosse parida no dia seguinte.
Oficiais graduados foram à casa de Deodoro, que, mesmo adoentado, liderou os companheiros, demitiu o Gabinete do Ministro Ouro Preto, proclamou a República e voltou para o leito.
À noite, por falta de uma proclamação legal que dificultaria a vida de futuros historiadores, a Câmara de Vereadores do Rio (sic) declarou proclamada a República, e Joaquim Nabuco, que não se chamava Manuel e nem era vereador, se declarou seu autor. Às vezes, a anedota vira história…
Quando construíram o atual edifício da Câmara, inaugurado em 1923, ele ganhou o apelido de Gaiola de Ouro, devido ao alto custo de sua construção, mais que o dobro do custo da construção do Teatro Municipal, ao seu lado, na mesma praça.
Olhos cúpidos e mãos impuras, bem mais tarde, serviram de inspiração para o ex-juiz trabalhista de São Paulo Nicolau dos Santos Neto, que ficou popularmente conhecido como Lalau, ladrão no vocabulário popular, que também poderia, por exemplo, ser Maluf.
Enquanto a Interpol caça Maluf e não pode invadir a Câmara dos Deputados, onde Maluf ficou blindado, Lalau, condenado, teve que devolver a grana que conseguiram recuperar e cumpre pena.
Maluf não pode sair do país sem ser preso, coisa que se fosse com o governador fluminense Sérgio Cabral (filho), seria mortal.
Se o diabo, criado para comandar malfeitos, gosta de atribular cidadãos como este neófito de informática, deve estar feliz por sumir com a minha coluna que deveria estar aqui.
O que o diabo não sabia é que quem tem amigo nascido em Marechal Deodoro, como o caríssimo escritor Altamir Tojal, não morre pagão de assunto e ainda conta com a inspiração do sempre lembrado amigo Stanislaw Ponte Preta e seu Samba do Criolo Doido.
Inté.
Vitrine (comentários de leitores)
Ao pé da coluna anterior: Conto e crônica – “Essa fronteira de conto e crônica é uma pista para a sociedade livre global. É bom atravessar sem pedir licença. Uma beleza de conto e de crônica, Mario!” Altamir Tojal, escritor e jornalista, Rio

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