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Balde de siri gaúcho não precisa de tampa

Se é um lugar tão desejado por todos e tão bom, porque as pessoas bebem tanto quando estão na praia? Ora, bebemos para nos …

Se é um lugar tão desejado por todos e tão bom, porque as pessoas bebem tanto quando estão na praia? Ora, bebemos para nos livrar da camisa de força riograndense que tanto orgulho nos dá. Bebe-se para ser livre outra vez, bebe-se para dizer tudo o que vem na cabeça, para rir, para brincar. E sem trago não dá? Pois é, sem trago não dá. Todo mundo continua careta, respeitavelmente adequados e comportados, como são na cidade.

Gaúcho não está acostumado a ficar sem roupa uns na frente dos outros. Carioca está tão acostumado que inventou o Fio Dental para reduzir o Biquini, aquela peça que esconde tudo. Esta é a imensa diferença entre quem vive na praia e quem vai à praia uma vez por ano. Quem vai à praia uma vez por ano tem sede de fazer loucuras, quer descontar um ano inteiro de rotinas engessadas. E vamos que vamos, ninguém segura mais a demanda reprimida. E aí, meu camarada, sai de baixo que a chapa vai esquentar, tirem as crianças de perto.

Rola de tudo. São 15 dias tomando caipirinha adoidado, comendo churrasco adoidado, conversando com as mesmas pessoas de sempre (adoidado), lendo jornal na areia adoidado, cortando a grama do jardim adoidado, dormindo depois do almoço, assistindo TV de noite adoidada, ou se jogando de cabeça num emocionante jogo de cartas. Que tal?

Gaúcho quando vai para praia, continua sendo um gaúcho cercado de gaúchos por todos os lados. Balde de siri gaúcho não precisa de tampa, a patrulha comportamental vai junto. O desinfeliz que ralou o ano todo não vai se espraiar como se fosse lógico, dançar e gargalhar como se fosse livre, adulto, com a agenda zerada e de férias. Os amigos vão estranhar, a família não vai entender, os clientes, ou os pacientes, estão por toda parte, onde é que já se viu?

Se numa roda surgem as lembranças das loucuras que faziam na Praia do Rosa há 20 anos ou 30 anos, aí a emoção toma conta de todos. Saudades do luau na areia, roda de viola, do frisson, da azaração (palavra da época), quando e se amanhecia nos barzinhos.

Não sei qual é a sua praia, mas a minha é a mesma que vivo em Porto Alegre o ano todo. Quero dizer que em boa parte do tempo tento flertar com a alegria, dou duro, mas também sei ficar à deriva, ao sabor das emoções aleatórias. E nunca descarto a hipótese de que o inesperado me faça uma surpresa. Me ocorreu agora que os cemitérios estão lotados de gente comportada; gente que em vida nunca fez o que gostaria. Esqueleto frustrado sabe que the game is over, deu pra bola, que triste destino. Mas ali também tem muita gente que viveu pra valer. Acho que entre eles ainda tem alguns que dão uma escapada de vez em quando. Nunca falta uma terreira para baixar, tomar uma marafa, fumar um charuto e dançar ao som do batuque puxado no capricho. Sei não, tem gente que não se entrega nunca. Eta nóis.

Autor

Paulo Tiaraju

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