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Barbies de academias

A garota de Ipanema nunca foi a uma academia de ginástica. Limitava-se a passar, no doce balanço a caminho do mar. Naquele tempo, mulher tinha …

A garota de Ipanema nunca foi a uma academia de ginástica. Limitava-se a passar, no doce balanço a caminho do mar. Naquele tempo, mulher tinha “aura” de mulher. Sexo era mais do que sexo embora, no fim, descobríamos que não passava de sexo. Nosso Big Brother, no máximo, era um pé de vento que levantava uma saia e, se era da mãe ou da irmã de amigo, a gente baixava os olhos, para depois se arrepender. No âmago e no avesso do avesso do pecado restava a imaginação fértil e redentora na privacidade do banheiro.

Talvez eu seja um neo-babaca, refratário ao voyerismo destes tempos incertos e selvagens. Não me conformo que as putas modernas sejam, no corpo, no vocabulário e no vestir, idênticas às filhas dos meus amigos, e não espanta que freqüentem as mesmas academias. São filhas da mesma “cultura”, ou órfãs da mesma “liberdade”, dos fenômenos midiáticos que vieram para ficar, para banalizar, até a medula dos ossos, os nossos fetiches mais secretos, as nossas esperanças mais resguardadas.

Sem oferecer nenhuma contradição, oficializou-se a caretice na pátria das bundas e dos espertalhões. No Brasil de hoje, Nelson Rodrigues morreria de fome. Não há mais uma Dama da Lotação, uma cunhada proibida. Nem mesmo a “mulher casada” é objeto de desejo do inconsciente coletivo masculino. Acabou. Todas são damas de lotações, as cunhadas foram deserotizadas; a linha do possível e o impossível é tênue e se move sem o menor resquício de pudor.

Não vale mais a pena roubar laranja no pátio do vizinho: há laranjas demais em oferta no mercado, muitas vezes a preço de banana. Não há mais ilusões. A bunda era um monumento nacional até a chegada do “É o Tchan”, da dança da garrafa, da sacanagem institucional e pasteurizada. Depois destes sucessos culturais, a bunda se mercantilizou. Ou melhor, se desmoralizou. Perdeu em mistério e poder, e o fio dental deu o golpe de misericórdia. Esta é a maldição. Como se uma nação inteira bocejasse frente à exibição das bundas explícitas, da anti-bunda sem substâncias etéreas, a bunda sem mistério.

A proliferação de Barbies de academias é um fato consumado. Quando vejo aquele corpo de balê rebolando atrás do Faustão me dou conta que a combinação de pobreza, rosto bonito e mídia é o mais perverso atalho para levar muitas daquelas meninas para o pântano da prostituição dissimulada. Logo serão capas de revistas masculinas, e dali para programas obscuros.

Imagina, imagina se houvesse uma imensa mobilização dos meios de comunicação e da sociedade em geral para o incentivo de criação de academias destinadas ao exercício do pescoço para cima. Que tal? Garotos e garotas malhando seus potenciais de inteligência com a mesma desenvoltura com que malham as pernas, o tórax e as bundas? Uma coisa não exclui a outra. Não perdemos a medalha de ouro de futebol feminino em campo. Em campo, Marta e companhia deram um show de bola, de garra, de fé e superação. Perdemos em auto-estima. As universitárias americanas não se intimidaram. Com os pés não jogam muita coisa. Mas o cérebro venceu o talento e o corpo. Meninas, cuidem de suas bundas, mas não esqueçam daquela região indispensável que fica embaixo dos seus lindos cabelos.

Autor

Paulo Tiaraju

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